sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Um Sim


Tudo começou com um sim. Um sorriso, os abraços, beijos e lágrimas. Um sentimento estranho, de alívio e tristeza, tomando conta de todos; forma estranha de se começar o dia. E que estranho. Mas durou pouco, pois pouco antes dos ponteiros completarem a volta dos meios dias, saímos todos, em direção tão conhecida. Não havia mais uma distinção, uma diferença. Era uma classe, o Terceiro; e fora aqueles que, por devida compostura de “excluídos”, eramos todos águas e cores.

O tão esperado momento durou pouco, mas foi suficiente para que todos tivessem seus anos – e almas – lavados.

E então, foi uma correria só, para os mais velhos, em fortes abraços; e uns para os outros, na rua tão conhecida. Comemoramos aos gritos, aos berros, aos sons de bombinhas e fogos. E, se não bastasse a alegria de estarmos ensopados, ficamos todos pintados. E uma explosão de cores na frente do TUCA, com uma guerra de tinta nunca antes vista. Calouros? Não, apenas colegiais, comemorando o fim de um ano estranho, difícil, marcados pelas rivalidades e discórdias. Mas, ao mesmo tempo, colegiais que disseram sim.

Pois tudo, no mundo, começou com um sim.

sábado, 13 de novembro de 2010

Rita

Ritinha já fora bela. Os olhinhos grandes, simétricos e sérios, eram contornados com renda indiana e longos cílios negros. E de um azul... Dava quase para ouvir o mar batendo na retina fina, querendo sair. Seu nariz, arrebitado, era desculpa para uns chamarem “metida”. Para outros, apenas “bela”, só assim. A boquinha fina, delicada, era cor de morango maduro apanhado no pé, fazendo uma curvinha para cima – talvez um sorriso de quem diz tudo e nada. E tinha uma pequenina pinta no cantinho.

Os cabelos, de um escuro cor de mogno, eram encaracolados de raiz a pontas. Presos na frente, à moda francesinha, por pequenos alfinetes perolados. E nos outros cachos, pequeninas pérolas, que, postas a esmo, lhe faziam uma coroinha quase que de verdade.

Ritinha tinha um leque, desses de papel, com desenho de flor de jasmim e bambu. Dizia-se chique um leque naquelas épocas. E vestidos? Muitos, abalonados, rendados, simples de usar no jardim e chicosos de festas. Mas o de preferência daquela criaturinha miúda era o vestido cor dos olhos, que tinha manguinhas de seda, estreitava na cinturinha fina e vinha cheio de rendinhas brancas, à barra de saia. Como ficava bela com ele! Bela Ritinha.

A pele alva era de maciez nunca não vista, e dava medo de tocar Ritinha, medo de machucar aquela boniteza toda. Parecia que só em toque se arrepiava toda ela, apessegando as bochechas de almofadinha. Essa era Ritinha, toda feita de inhos e inhas. De passar tardes no jardim de casa a tomar chás e a ter conversas íntimas com sua melhor amiga; e de dar longos passeios na cidade, sempre bem vestida, de mãos dadas a ela. Encanto que era aos olhos todos – ninguém nunca vira antes nada igual.

Mas soprou vento, e tempo passou. Passou e não levou Ritinha consigo. Ela agora está ali, encostada num canto qualquer, esquecida. Sua boca não tem mais aquele sorriso de amante. É boca triste, cor de ameixa passada e deixada. Os cachos se desfazem aos poucos e deixam cair as pequenas pérolas que, uma a uma, fazem do colo e do chão outra coroa.

Seu vestido amarrotou, perdeu a cor; e as rendas agora servem apenas de passado, rasgado. Os olhos não marejam mais, parecem mesmo é uma bacia d’água cor do que já foi. Um cinza melancólico, apagado. Não mais toma chá no jardim ou faz seus passeios, preferindo a familiaridade daquele canto. Não se interessou nunca por rapaz algum, e permanece agora só. Essa foi Ritinha, e essa ainda a era.

Agora Rita... Crescida como estava, nem parecia mais menina. Ocupava suas manhãs arrumando os longos cachos acastanhados, e cantarolava as cantigas apaixonadas que traziam os vendedores de cocada no fim de tarde. Os rapazes passavam à sua janela, com cravos, rosas, begônias e margaridas, o coração a mil, esperando nem que fosse um sorriso de Rita. Bela Rita, moça feita que não mais brincava de boneca.

Debruçava-se a janela, e mar contemplava mar, que batia na areia cor de pele e dava bons dias e boas noites. À hora quente de sol inteiro, sentava-se ao banco do jardim com livro no colo, instruída que fosse; amante de histórias e estórias. E em fim de tardes saía; braços dados com moços de flores. Hoje mesmo se arrumava, punha seu vestido azul e água com cheiro de rosas. Ia com o moço dos cravos.

Ritinha mirava, via. Não se importava, nem guardava rancores muitos. Bem sabia que tempo soprava e passava. E que ela própria era porcelanas e vidros, eterna. Mas nunca carnes e ossos.

domingo, 31 de outubro de 2010

À uma amiga minha

Com esse cheiro de café de aumentar alma, eu quase que consigo ouvir tua risada, bem do meu lado a pé de ouvido. É risada de tempo, sim; um tempo que passou, mas que insiste em voltar e retornar. Retomar. Tempo de café, de risadas, fotografias e livros empoeirados. Que mais? Para gentes como nós, nada nunca foi demais.

Fico aqui imaginando por que bandas anda você. Se caminhas como menina que fora, de laços e fitas e vestidos de princesa; ou se te rebelou contra o mundo e mundos, e agora corres por ai com olhos negros de brilho castanho. Com essa tua alma inquieta, fascina sempre quem tem a coragem de ficar por perto. E se não bastaram todas as bobagens proferidas em tardes de semanas (ou não-semanas) e em manhãs preguiçosas de pluralidades infantis, os diversificados ramalhetes de assuntos sérios devem de servir. Não que fôssemos exatamente sérias – quem de fato o é?

Se te lembras, sonhos muitos tivemos; tantos que dava até para distribuir por ai. Sonho que se sonha, mas que também se vive. Recomendo que deixes teu baixo de lado, por via das dúvidas. E amor? Se todos precisamos, por que não sobrevivemos dele? Tarefa difícil, vez que se prova do amor que não o nosso. Nossa fala é incontável, de palavra infinita e muitas vezes, nula. Nem sempre se precisa de palavras para você. Ou mesmo para mim, para nós.

Você me chama evolução o jeito novo de pensar mundo e escrever pensamento. Ninguém não pode concordar. Mas de certa forma é só aquilo que nossa inocência não nos deixou descobrir antes – juntas. Tenho o prazer de te ver crescer assim, em palavras. Prazer e desprazer, por que nada justifica não estar a pé de ouvido todo dia assim. Mas já não precisamos disso. Estamos além.

Café pode ser mexerica, perfume ou aquele cheiro de almoço e vinho tinto da tua casa. Confundem-se, misturando idéia e memória. Sinto falta da presença, mas ela não é relevante, posto que um dia com você valha mais do que uma vida toda de meias-horas e hora e meia. Se te encontro em palavra e cheiro, presença e ausência, ou tudo isso de forma a não se distinguir; de todo, não importa. Nesse plano, nesse texto; ou mesmo quebrando qualquer barreira imposta, sei que te vejo e revejo. Por que tempo insiste em retomar o que não foi e ainda está para ser. Volta e retoma. Retorna.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

De Barro


Acordamos. A manhã não era manhã; era ainda noite. Mas, mesmo assim, acordamos. Tinha alvoroço grande lá fora, uma coisa que era toda pios e gritos. Em senso falho e curiosidade muita, livramo-nos das roupas de dormir e do calor de cama e saímos – a pés descalços.

A terra vinha batida, culpa de orvalho. O sol bocejava e hora menos acabaria acordado, inteiro. O vento soprava, a relva acompanhava e o alvoroço, tão perto como longe. Seguimos som, embrenhando-nos nos campos desprotegidos de fim de noite.

Tão ali, em meio de clareira, passarinhos escuros, feito terra, piavam e agitavam, soltando penas no arzinho frio. João de Barro. Um, dois, três... Muitos. Choravam tragédia ou clamavam alegria? Olhamos. Procuramos. Bem nos ramos do Ipê, entre galhos e amarelos, restos de barro empilhado. No chão, uma cúpula apagada.

E aqueles pequeninos a piar? A mãe sinhazinha gritava como não gritaria mulher nesse mundo que Deus fez, e que o Diabo desfez. Os outros, menores que ela – dir-se-ia dela – tentavam sopros falhos no ar, que não soavam nota conhecida em sinfonia ouvida. Mas cadê João? De João, ninguém não sabia. Não estava por essas ou aquelas bandas. E que tristeza abateu sobre nós! De tal tamanho que quisemos dar consolo qualquer, aonde mãos e penas se iam a juntar. Nossas e deles. Uma pena.

Miramos pouco mais, antes de arriscar riscar o chão. O sol não queria começar o dia. Nasceria torto. Gauche. Os pequeninos procuravam pena qualquer que fosse. Rastejavam em si mesmos, como lepra ou doença valha em corpo de gente moribunda. Uma pena. De dar dó. Aproximamo-nos, coração em mãos e penas. Estendemos o que podíamos – em qualquer forma de caridade. Mas sinhazinha não quis. Reteve lágrimas e se foi para longe. Ficamos; nós e eles. Uma pena.

Miramos mais. De dar dó. E que se podia fazer? Talvez agora consolo fosse pouco, mas servisse. Arriscamos outras passadas – ousadas – que serviram apenas para arrastar passarada pelo chão. Não nos queriam, mas sim à outras penas.

O sol espiava triste e esquentaria quem o quisesse mais tarde. Quem não quisesse também. Não se podia fazer nada. Deixamos lá; penas e pena. Afastamos-nos a pés descalços e deixamos que lágrimas escorressem em ar úmido. Nossas. Deles. Lágrimas em sol. Cor de céu de nuvem. Uma pena.

Sinhazinha que voara para longe não mais veria João. Não se interessaria por José ou quem fosse. Pensaria, mas não mais veria João. Estaria por cá e lá a alvoroçar penas e pena; a piar pio de fim de tarde em meio dia. Vestiria véu que ninguém não veria. Não veria; nem a nós. A ninguém. Mas estaria lá enquanto o sol esquentasse o chão e todo o resto – quisesse ou não. De dar dó. Uma pena.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Passarada

Piaste mais fortinho, pequeno passarinho?
Ou fora leve impressão?
É de meio dia (ou talvez dia e meio)
E caminha para a manhã
(ou, quem sabe, voa).

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

De Chuva


“Vai logo. Vai logo. Vai logo!”. Chovia lá fora. As gotinhas batiam na janela fechada de madeira amarela, tentavam levar para dentro da casa aquele friozinho de chuva de outono. O sol já havia desistido de tentar burlar a união daquelas nuvens escuras, que ocupavam todos os espaços do céu e faziam se esquecer o que é noite e o que é dia. Ali, bem ali, no meio de uma cozinha de papel de parede forrando o branco e de chão de ladrinho de um vermelho queimado, um pingo de gente com listras vermelhas, amarelas e marrons, estava sentado. Tinha as perninhas cruzadas, os cabelos despenteados e a inquietação de criança que tem que ficar em casa em dia de chuva.

Não agüentou mais.

- Falta muito, mamãe?

A mãe, aquela típica dona de casa com viés de pintora, de vestido pastel e saia rodada; cabelos presos com tiara e riso de aquece-alma; deu um daqueles sorrisos de quem quer segurar a paciência consigo.

- Não, meu amor. Só mais um pouquinho.

O garotinho assentiu; já impaciente. Ajeitou-se em seu lugarzinho e tornou a encarar o vidro escuro. Queria mesmo era ver o que estava por detrás dele, porém, aquele vidro misterioso não revelava, e tudo que podia ser visto era o próprio reflexo. Na pia, o restou de louça, ainda por lavar. Vasilha, xícaras, colheres e pratos de cerâmica. Havia um pouco de espuma escorrendo, parecia até uma lagarta, que descia o móvel da pia tentando chegar à porta. Queria mesmo era estar lá fora.

A chuva não cessava, e isso destruía qualquer esperança. Já pedira para a mãe para sair de guarda-chuva, capa amarela, ou mesmo ficar ali, com a janela aberta, só sentindo os pinguinhos na pele fofa e rosada. Mas para tudo mamãe tinha resposta, e era sempre a mesma: não. Agora estava ali, a esperar. Por que raios demorava tanto o tempo a passar? Parecia até querer fazer piada dele, ver quanto tempo agüentava antes de perguntar novamente.

O garotinho, a principio, calou-se, levando para dentro de si a vontade de perguntar novamente. Levantou-se, correu até seu quarto e voltou, com algumas folhas de papel branco no braço e lápis de cor nas mãos. Olhou a mãe antes de começar. Arriscou outra pergunta.

- Falta muito ainda?

A paciência começara a escorrer, feito a chuva na janela amarela.

- Olha – começou a mãe – por que você não faz um barquinho? É o tempo de ficar pronto.

Os olhinhos do garotinho até brilharam.

- Daqueles bem grandes, como os dos filmes, mamãe?

- Isso!

- Posso levar ele navegar lá fora depois?

A mãe parou, encarou a criança. Sabia da vontade do pequeno de sair lá no jardim e tomar um pouco de chuva. Ela própria adorava fazer isso. Mas sabia também que a chuva estava muito fria. Ele ainda a encarava, enquanto ela pensava.

- Você vai parar de me perguntar se falta muito?

- Sim! – respondeu sem pestanejar aquele protótipo de homem.

- Tudo bem. Faça o melhor barco que você conseguir, e depois iremos lá fora para deixá-lo navegar.

- Oba!

E assim começou o trabalho minimamente detalhado daquele pingo de gente. Parecia até doutor estudioso do assunto. Dobrou com cuidado o papel branco, para não deixar furo no barco e não fazer os marinheiros se afogarem. Dobrou, desfez, arrumou e deu uma ajeitadinha nas pontas, e logo tinha em mãos o mais imponente dos barcos já feitos. Pintou, desenhou e rabiscou; afinal um barco como aqueles tinha que ter personalidade.

A mãe, quando viu, lembrou do que havia prometido. Suspirou e deu a mão para seu filho. Os dois avançaram pela cortinha d’água, fininha e gelada como só ela. Atravessaram o jardim de verdes escuros e águas pingantes e chegaram à rua, chegaram ao grande rio. Aquele garotinho ria a toa, à medida que ficava ensopado. Ela também, não havia como não rir, não havia como não sentir aquela coisa estranha que percorria o corpo todo e fazia a gente querer mostrar os dentes.
Colocaram o barquinho na correnteza assustadora do meio fio e viram muitos homens corajosos se despedindo de suas moças e partindo para o desconhecido.

- Para onde vai, mamãe?

- Vai chegar no mar.

Em que mar chegaria? Não importa, por que aquele imponente barquinho de papel não pararia enquanto não fosse inevitável. Desceu correndo a rua e virou a esquina. Sumiu. A essas alturas, o garotinho já estava imóvel, de braços e bocas abertas, com a língua esticada para as nuvens.

- Você esqueceu mesmo de me perguntar quanto faltava. – comentou a mãe, ensopada.

Ele nem notou, ou, pelo menos, fingiu não notar, a fim de prolongar aquele momento molhado. A mãe o observou, ia deixar ficar mais, mas eles deveriam entrar.

- Vamos pequeno. O bolo que fizemos está pronto.

O garotinho saiu do seu transe. Mirou, com brilho nos olhinhos miúdos, sorriu e entrou em casa correndo. A mãe acompanhou.

Ali, no meio da na cozinha com papel de parede forrando o branco e piso de ladrilho cor de vermelho queimado pingava um pingo de gente com listras vermelhas, amarelas e marrons. Tinha as perninhas cruzadas, os cabelos molhados, uma toalha nas costas e um enorme pedaço de bolo nas mãos. Valia-se do infinito para comer aquele pedaço. Olhou a janela. Chovia lá fora.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

De Mágica

Uma tremedeira começou e espalhou todinha por aquele corpinho pequeno, enquanto os batimentos começavam a se acelerar, à medida que as luzes iam enfraquecendo. Era uma inquietação tão forte que ele mal se agüentava no lugar. Apertava as mãozinhas nas grandes e velhas mãos do avô, e com os olhos fundos, mirava-o, esperando que se pronunciasse.

Silêncio.

- Vovô, estou com medo – finalmente admitiu.

- É só esperar um pouquinho. Você vai gostar – garantiu o velho homem de cabelos branqueados e rareados.

O garotinho engoliu seco. Mirou sua volta. Muitas pessoas ainda chegavam, fazendo esforço para enxergar à luz cada vez mais fraca. Alguns conversavam, animados, sobre as últimas notícias que saíram no jornal – um escândalo! – como sempre.

- Vovô... Está tão escuro aqui – insistiu, cada vez mais inquieto em seu amplo pequeno espaço de existência.

- Paciência, criança. Espere e verá.

O garotinho, de cabelos louros cortados à tigelinha, tinha medo de escuro. Porém, ouvir aquela voz envelhecida por veludo azul era mais reconfortante do que estar envolto no mesmo. Respirou fundo, ajeitou-se em seu lugar, tomou alguns daqueles doces coloridos do saco de papel queimado que estava entre suas perninhas finas e esperou. O burburinho aos poucos foi se aquietando. A sala, esta foi ficando mais e mais escura, feito quase breu de noite. Um certo tipo de inércia até parecia reger aquele lugar, e uma expectativa estranha se embrenhava em todos. E então: luz.

Um feixe grande assim, branco feito leite de café, que batia numa parede lisinha e explodia em imagem e cor. De trás, o som muito alto fazia vibrar as poltronas de feltro vermelho; que fazia vibrar aquele garotinho todo. Ele olhou para o avô, a boca empanturrada de doces e açúcares; e sorriu, com pedacinhos multicores ainda entre seus dentinhos de leite.

- Wow! – foi tudo que aquele pedaço de gente conseguiu dizer, extasiado demais com o glamour de tudo aquilo.

- Preste atenção agora – começou o vovô – Vamos ver uma história de mocinho e bandido, de donzela e muita ação!

Aquele velho homem, que sabe-se como ainda não fora levado com o tempo, explicava empolgado. Há tempos não sentia vivo aquele corpo, aquela alma; como sentia quando sorriu com o seu pedacinho de gente, que tanto o lembrava a ele mesmo.

O garotinho olhou, consentiu, e a partir de então, não desviou mais os olhos daquelas imagens frenéticas que não paravam na parede branca. Se viu mocinho, com arma na mão. Corria mais rápido que som, e a mira até parecia de espião de verdade. Lutou contra o bandido, salvou a mocinha e dela ganhou um beijo. Tudo isso passava ali na parede, e passava dentro dele, enquanto roubava docinho do saquinho entre as pernas.

Era clichê, mas para ele não. Ele era o filme, e lutava, e torcia, e se deliciava, bebendo daquela imagem toda e daquele som estarrecedor. Era novidade, feito tinta fresca em parede de vidro. Viu mais, olhou mais, e viveu.

E tudo passou. A história terminou, mas o garotinho não. Soltou um suspiro aliviado – ufa! – quando o bandido se rendeu, e depois das palavrinhas que subiam sem que ele as entendesse, ainda ficou, olhou. Não viu as luzes amareladas voltarem, e muito menos seu vovô a lhe chamar pelo nome.

- Carlinhos! Carlinhos!

Feito passe de mágica ou Houdini, saiu daquele transe que entrara não sabia como. Mirou o vovô.

- Vamos, criança. A sessão acabou. – explicou.

- Ah, vô! Não dá pra ficar só mais um pouquinho.

O velho homem revirou os olhos, talvez, por conta daquela dorzinha chata nas costas, quisesse ir logo. Encarou o garotinho, porém não resistiu; aquele olhinhos miúdos brilhavam demais. Deu um daqueles sorrisos discretos de canto de boca e assentiu – “só mais um pouquinho”.

Um pouquinho... Tempo suficiente para o garotinho ver e rever aquilo tudo de novo, por quanto tempo a vida o permitisse fazê-lo.

domingo, 3 de outubro de 2010

Eleitorado

Fui seguindo pelo meio fio. Era hora do almoço e todo o pessoal já tinha sumido, que nem some água em dia de sol. O dia era desses que é e não é; que está calor e frio, e que o tempo passa e arrasta. Dia indefinido.

Eu não tinha pretensões para um grande almoço. Qualquer coisa servia, até por que quase matava cachorro a grito. Tempo difícil pra quem trabalha, dizem que por culpa de eleição. Realmente, escolher um governante nesse país era coisa que requer trabalho, tempo e dinheiro, principalmente.

No fim, optei pela barraquinha de rua que vendia pastel. Da feira, nem sinal, só o cheiro de bacalhau velho e açafrão. Fora dali, a cidade borbulhava com as tais eleições, pensei até que iam embrulhar meu almoço naqueles papeizinhos de propaganda.

Peguei, paguei, segui a volta pelo meio fio. Ainda tinha algum tempo para engolir a comida, e decidi sentar em algum lugar, na tentativa de livrar meus pés do ataque de milhões de outros papeizinhos, previamente abandonados no asfalto esburacado. Seria graça de o Senhor fazer o tempo se conservar seco. Caso contrário, era bom comprarmos nossos coletes infláveis.

A cidade nessas horas nem parece a mesma. Quase temos outdoors de novo, tamanho número de propagandas. E na TV parece que o mundo virou o lugar ideal - não se anuncia mais desgraça como antigamente. O fenômeno eleitoral ate chega no botequim, se bobear. Chope gelado e o embate para escolher o político que melhor vai administrar a conta - própria.

Termino, a tempo de ver um daqueles carros de campanha. Na falta de música, propaganda. Por que não? Deveria era deixar o trabalho fatídico e voltar para casa pra trabalhar na minha decisão votística, afinal, temos todos obrigação, como cidadãos civilizados. Mas quem vai sustentar minha ajuda ao Estado quando os votos forem contados?

No fim, é tudo a mesma coisa. Vou-me de volta ao meu cubículo, senão quando sumirem os papeizinhos vai sumir o resto de dignidade que tenho. Quem dera estar inserido nessa política, assim, pelo menos esse problema eu não teria.

- Eleições 2010 -

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Um Apelo

Vamos todos, vamos que a hora é boa.
Não é preciso pressa, receio nem medo,
À medida que caminhamos entre pedras e azulejos,
E marcamos nossos passos com tinta recém pintada.

Que houve conosco?
Para onde fomos todos, para termos nos perdido assim?
Que houve com palavras e promessas,
Tantos planos para uma vida; tantas vidas em um plano?

Escutem agora, que me é um apelo.
Por que não voltamos para onde começamos?
Tragam suas memórias e desejos.
Há sempre tempo para tentar se resgatar passado.

Esperem! Pois a hora não tarda a chegar.
É cedo para quem quer, e tarde para quem já deixou.
Acelere a partida, a vida tem mais para dar,
E caso me atrase, diga que hora menos estarei lá.

Que me dizem? Ou, ao menos dizem algo?
O que escuto é silencio, ou apenas um protesto?
Mas protestos precisam de palavras,
Então por que não dizes as suas, para que eu possa dizer as minhas?

Que faço eu agora se te calas? Sinto-lhe a falta.
Mas quanto a isso nada posso fazer,
Pois já deixaste o passado no passado,
E neste mesmo me prendera calado.

Para onde fomos todos, repito?
Que houve conosco?
Não poderíamos apenas voltar?
Ou isso é pedir muito a quem nada diz?

Conseguiste! Agora choro e imploro:
Não me deixes, não me deixem.
Que me dizem de pintarmos com tinta nova esses azulejos velhos,
E fazer do pouco que nos resta o muito que nos sobra?

Alguém aí me escuta?

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Blue Eyes

"Come on, do not be afraid. It is ok; I promise nothing is gonna happen to you. Please, step outside. Honey? Please, it is ok. The world isn't that bad. It is not gonna treat you badly. Things are gonna be just fine. Trust me. Come on...

But you are not coming, are you? Yeah, I bet you are not. You don't trust me, my word. You don't trust this beautiful world that is surrounding you. Oh, I'd do anything if you just tried to move your feet. Are you sure? Really? Please, I beg you..."

As she said that, she stood still, feet in the green grass, yellow dress blowing with the cold wind. Her smile was just fading away with her hopes, and maybe a tear was coming down from her eyes. They were blue, like the tear.

The man inside was staring at her. He could not understand why she cared about him. They barely knew each other. They barely knew why they were there – together. A long time ago he would think about stepping outside. Maybe he would even consider... For her.

But why would he right now? Why was she there, anyway? That thought bothered him, made him feel sick or something. He closed his eyes and waited, hoping that, when he opened those tired eyes again, she would be gone.

But there was she, still.

"I'm not going anywhere, you know".
"Why are you doing this?".
"I just can't go".
"Oh..." - 'Damn it!', he thought.
"Are you sure you're gonna stand inside?"
"Are you sure you're gonna stand on the wet grass?"
"Hell yes!"
"So do I, then".

She stared at him; gave him that look.

"I loved you, you know that?"
"Guess so... But why do you care now? Do you still love me?"
"No, I don't. Actually, I almost hate you for everything".
"And still... You are here"
"Yeah"
"That's not logical".
"I know"
"Why are you here?" - he was losing his patience.
"I just... Care, that's all".
"Go away, please. There is no time for us anymore".

The sun was setting his tired legs. It just wanted the night to come and replace him.

"I won't go."
"Why are you doing this to me? To yourself? I don't want you, for Christ's sake!"
"Can’t you see? I gave you something you'll never get riddle off, and so did you".
"If I knew you would be by my side after I wanted you far from me..."
"Yeah, yeah, I know... But you have already crossed the point of turning back".

The beautiful rouge shine colored the sky. She was so damn beautiful. Why would he want that beautiful girl to be far away? He didn't know, but his skin was turning red and angry tears were cropping up from his eyes. Hell, he really wanted her to vanish.

"You really want me to go?"
"Yeah!"
"All right then. Happy? You won. "

As she said so, she turned her back on him, and started walking away. He felt really sick right then.

"Wait..."

She turned her head. Her blue eyes were the most beautiful thing anyone could ever see.

"What?"
"It's a strange feeling, but... I don't know if I want you to walk away..."
"I'm not walking away, silly man".
"No?"
"Course not! I just said I can't, didn’t I?"
"Oh... So, where are you going?"
"Don't worry. I'll be back soon, just in a blink of an eye".
"But..."

And she was gone, between trees and grass, in a green and big painting. He blinked. And there was him, staring at himself in a dirty window.

"Looking the garden?"

The voice surprised the man. Woman's voice.

"Talking with her again?"
"Y... Yeah"
"Sure... It’s ok now. Come with me, will you?"

A small woman, dressed all-white, was waiting for him. She had her hair in a ponytail, and was wearing very heavy makeup.

"Where are we going, miss?"
"Take your pills, you silly".

She smiled, as they walked on their all-white clothes, trough an all-white hall, that he barely knew where was it leading him. He blinked again, and waited just to see the girl of blue eyes on the yellow dress coming back on her bare feet.

domingo, 12 de setembro de 2010

Bocejo de Terra

"Nostalgia me invade agora, e - por Deus! - me transporto para a cidade de pedra. Saudade de um passado que apaga aos poucos. Nostalgia. Mas, por mais que eu negue as vezes, passado é passado, e foi feito para ser só lembrado. Não somos eternos como o calcário a ponto de guardá-lo e resgatá-lo".


Gruta do Maquiné - 05/09/2010

sábado, 11 de setembro de 2010

Infância

Uma bola de neve,
Uma linha de pesca transparente.
Um estojo com lápis, borracha,
Apontador, e estilete.

Um dicionário pequeno,
E um castelinho de areia.
Um caderninho de bolso,
E um vasos com florezinhas de jabuticabeira.

E que vais fazer com isso?
Oras, isso é problema só meu.
Como sonho de menina,
Faço disso o que não se perdeu.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Pedra



A vida parou, me parece. Os últimos ruídos iam enfraquecendo à medida que passava o tempo. Mas que era o tempo a não ser uma vaga invenção humana? De nada valia aqui. As luzes enfraqueciam, e, de repente, tudo cessou. O silencio calou a boca, a vida, a alma. Calou o tempo, calou o homem. Calou os animais de pedra. E ficou claro que por mais que o mundo mudasse, acabaria sempre assim: como num bocejo, num supiro.

E logo voltaria a crescer a inquietação da vida.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Morre


Enquanto o sol baixava naquele horizonte de sonhos, as almas livres corriam por um jardim de alegrias e esperanças. Não havia idade, não havia distinção. Era uma igualdade que chegava até a intimidar. Mas elas não ligavam. Corriam e corriam, exibindo corpos prateados, dourados. Besuntavam-os com água de ouro, com colônia de tempo; bebiam elixir de vida.

E em meio à dança pagã, os pássaros começaram a cantar. Despediam-se do Apolo que não era cão. De súbito, aquelas almas pararam de dançar. Sentaram-se cada qual a seu tempo, e todas se juntaram. Parecia que os pássaros cantaram mais alto, mais bucólicos. Contemplavam vida e morte, morte de Apolo, morte de um dia. Parecia paradoxo. Era paradoxo.

O céu estava indeciso, não sabia se chorava ou sorria. Variava de laranja de alegria a roxo de zelo. Devia ser coisa misteriosa. Coisa de Deus, ou, quem sabe, do Diabo. Talvez até desse misterioso que nos acompanha a todos e assiste.

De qualquer modo, isso não importa, pois o céu sangra. Os pássaros choram e aquelas almas ainda dançam. A morte nunca me pareceu tão divina, a ponto de nascer e morrer com ela.




Cordisburgo. 06/09/2010

Cresce

Dedicado à alguém que não vejo há tempos. Ou, se vejo, não falo.

"Desculpe se me pego pensando em você as vezes. Não é de propósito. É só o sertão, que é vida mas também é morte. É passado. É você, ou, pelo menos, uma parte de você. Não me entenda mal. Só tento preservar tua memória, sem pensar em todos os contras, claramente. Sinto sua falta, meu caro. Um amigo, um confidente. É difícil conservar memória, mesmo essa envolta em tanto amor. Carinho. Saudade. Nostalgia e morte. Desculpe o martírio. Te mato e ressuscito a todo instante. Mas é tudo que posso fazer. É o passado, a nostalgia, o sertão. Esse pedaço de vida e morte que me inunda a alma".


Cordisburgo. 06/09/2010

Nasce

Faz vibrar a primeira nota na viola.
O som se espalha, se esbanja,
E é ouvido além mar.
Os versos livres dançam na brisa quente.
E disso nasce a história,
Nas planícies cor de ouro,
Que vão até onde a vista alcança.

Recomeço

Começando. Ou melhor, recomeçando, por que o primeiro começo é negro demais pra energia que me toma agora. Não vou abandonar o coitado do outro, mas... Deixe as coisas negativas para ele. Por aqui é tempo de alegria, é tempo de ver "o copo meio cheio" e tempo de, certamente, 'perceber que a estrada vai além do que se vê'.