
Acordamos. A manhã não era manhã; era ainda noite. Mas, mesmo assim, acordamos. Tinha alvoroço grande lá fora, uma coisa que era toda pios e gritos. Em senso falho e curiosidade muita, livramo-nos das roupas de dormir e do calor de cama e saímos – a pés descalços.
A terra vinha batida, culpa de orvalho. O sol bocejava e hora menos acabaria acordado, inteiro. O vento soprava, a relva acompanhava e o alvoroço, tão perto como longe. Seguimos som, embrenhando-nos nos campos desprotegidos de fim de noite.
Tão ali, em meio de clareira, passarinhos escuros, feito terra, piavam e agitavam, soltando penas no arzinho frio. João de Barro. Um, dois, três... Muitos. Choravam tragédia ou clamavam alegria? Olhamos. Procuramos. Bem nos ramos do Ipê, entre galhos e amarelos, restos de barro empilhado. No chão, uma cúpula apagada.
E aqueles pequeninos a piar? A mãe sinhazinha gritava como não gritaria mulher nesse mundo que Deus fez, e que o Diabo desfez. Os outros, menores que ela – dir-se-ia dela – tentavam sopros falhos no ar, que não soavam nota conhecida em sinfonia ouvida. Mas cadê João? De João, ninguém não sabia. Não estava por essas ou aquelas bandas. E que tristeza abateu sobre nós! De tal tamanho que quisemos dar consolo qualquer, aonde mãos e penas se iam a juntar. Nossas e deles. Uma pena.
Miramos pouco mais, antes de arriscar riscar o chão. O sol não queria começar o dia. Nasceria torto. Gauche. Os pequeninos procuravam pena qualquer que fosse. Rastejavam em si mesmos, como lepra ou doença valha em corpo de gente moribunda. Uma pena. De dar dó. Aproximamo-nos, coração em mãos e penas. Estendemos o que podíamos – em qualquer forma de caridade. Mas sinhazinha não quis. Reteve lágrimas e se foi para longe. Ficamos; nós e eles. Uma pena.
Miramos mais. De dar dó. E que se podia fazer? Talvez agora consolo fosse pouco, mas servisse. Arriscamos outras passadas – ousadas – que serviram apenas para arrastar passarada pelo chão. Não nos queriam, mas sim à outras penas.
O sol espiava triste e esquentaria quem o quisesse mais tarde. Quem não quisesse também. Não se podia fazer nada. Deixamos lá; penas e pena. Afastamos-nos a pés descalços e deixamos que lágrimas escorressem em ar úmido. Nossas. Deles. Lágrimas em sol. Cor de céu de nuvem. Uma pena.
Sinhazinha que voara para longe não mais veria João. Não se interessaria por José ou quem fosse. Pensaria, mas não mais veria João. Estaria por cá e lá a alvoroçar penas e pena; a piar pio de fim de tarde em meio dia. Vestiria véu que ninguém não veria. Não veria; nem a nós. A ninguém. Mas estaria lá enquanto o sol esquentasse o chão e todo o resto – quisesse ou não. De dar dó. Uma pena.
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