Com esse cheiro de café de aumentar alma, eu quase que consigo ouvir tua risada, bem do meu lado a pé de ouvido. É risada de tempo, sim; um tempo que passou, mas que insiste em voltar e retornar. Retomar. Tempo de café, de risadas, fotografias e livros empoeirados. Que mais? Para gentes como nós, nada nunca foi demais.
Fico aqui imaginando por que bandas anda você. Se caminhas como menina que fora, de laços e fitas e vestidos de princesa; ou se te rebelou contra o mundo e mundos, e agora corres por ai com olhos negros de brilho castanho. Com essa tua alma inquieta, fascina sempre quem tem a coragem de ficar por perto. E se não bastaram todas as bobagens proferidas em tardes de semanas (ou não-semanas) e em manhãs preguiçosas de pluralidades infantis, os diversificados ramalhetes de assuntos sérios devem de servir. Não que fôssemos exatamente sérias – quem de fato o é?
Se te lembras, sonhos muitos tivemos; tantos que dava até para distribuir por ai. Sonho que se sonha, mas que também se vive. Recomendo que deixes teu baixo de lado, por via das dúvidas. E amor? Se todos precisamos, por que não sobrevivemos dele? Tarefa difícil, vez que se prova do amor que não o nosso. Nossa fala é incontável, de palavra infinita e muitas vezes, nula. Nem sempre se precisa de palavras para você. Ou mesmo para mim, para nós.
Você me chama evolução o jeito novo de pensar mundo e escrever pensamento. Ninguém não pode concordar. Mas de certa forma é só aquilo que nossa inocência não nos deixou descobrir antes – juntas. Tenho o prazer de te ver crescer assim, em palavras. Prazer e desprazer, por que nada justifica não estar a pé de ouvido todo dia assim. Mas já não precisamos disso. Estamos além.
Café pode ser mexerica, perfume ou aquele cheiro de almoço e vinho tinto da tua casa. Confundem-se, misturando idéia e memória. Sinto falta da presença, mas ela não é relevante, posto que um dia com você valha mais do que uma vida toda de meias-horas e hora e meia. Se te encontro em palavra e cheiro, presença e ausência, ou tudo isso de forma a não se distinguir; de todo, não importa. Nesse plano, nesse texto; ou mesmo quebrando qualquer barreira imposta, sei que te vejo e revejo. Por que tempo insiste em retomar o que não foi e ainda está para ser. Volta e retoma. Retorna.
domingo, 31 de outubro de 2010
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
De Barro

Acordamos. A manhã não era manhã; era ainda noite. Mas, mesmo assim, acordamos. Tinha alvoroço grande lá fora, uma coisa que era toda pios e gritos. Em senso falho e curiosidade muita, livramo-nos das roupas de dormir e do calor de cama e saímos – a pés descalços.
A terra vinha batida, culpa de orvalho. O sol bocejava e hora menos acabaria acordado, inteiro. O vento soprava, a relva acompanhava e o alvoroço, tão perto como longe. Seguimos som, embrenhando-nos nos campos desprotegidos de fim de noite.
Tão ali, em meio de clareira, passarinhos escuros, feito terra, piavam e agitavam, soltando penas no arzinho frio. João de Barro. Um, dois, três... Muitos. Choravam tragédia ou clamavam alegria? Olhamos. Procuramos. Bem nos ramos do Ipê, entre galhos e amarelos, restos de barro empilhado. No chão, uma cúpula apagada.
E aqueles pequeninos a piar? A mãe sinhazinha gritava como não gritaria mulher nesse mundo que Deus fez, e que o Diabo desfez. Os outros, menores que ela – dir-se-ia dela – tentavam sopros falhos no ar, que não soavam nota conhecida em sinfonia ouvida. Mas cadê João? De João, ninguém não sabia. Não estava por essas ou aquelas bandas. E que tristeza abateu sobre nós! De tal tamanho que quisemos dar consolo qualquer, aonde mãos e penas se iam a juntar. Nossas e deles. Uma pena.
Miramos pouco mais, antes de arriscar riscar o chão. O sol não queria começar o dia. Nasceria torto. Gauche. Os pequeninos procuravam pena qualquer que fosse. Rastejavam em si mesmos, como lepra ou doença valha em corpo de gente moribunda. Uma pena. De dar dó. Aproximamo-nos, coração em mãos e penas. Estendemos o que podíamos – em qualquer forma de caridade. Mas sinhazinha não quis. Reteve lágrimas e se foi para longe. Ficamos; nós e eles. Uma pena.
Miramos mais. De dar dó. E que se podia fazer? Talvez agora consolo fosse pouco, mas servisse. Arriscamos outras passadas – ousadas – que serviram apenas para arrastar passarada pelo chão. Não nos queriam, mas sim à outras penas.
O sol espiava triste e esquentaria quem o quisesse mais tarde. Quem não quisesse também. Não se podia fazer nada. Deixamos lá; penas e pena. Afastamos-nos a pés descalços e deixamos que lágrimas escorressem em ar úmido. Nossas. Deles. Lágrimas em sol. Cor de céu de nuvem. Uma pena.
Sinhazinha que voara para longe não mais veria João. Não se interessaria por José ou quem fosse. Pensaria, mas não mais veria João. Estaria por cá e lá a alvoroçar penas e pena; a piar pio de fim de tarde em meio dia. Vestiria véu que ninguém não veria. Não veria; nem a nós. A ninguém. Mas estaria lá enquanto o sol esquentasse o chão e todo o resto – quisesse ou não. De dar dó. Uma pena.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Passarada
Piaste mais fortinho, pequeno passarinho?
Ou fora leve impressão?
É de meio dia (ou talvez dia e meio)
E caminha para a manhã
(ou, quem sabe, voa).
Ou fora leve impressão?
É de meio dia (ou talvez dia e meio)
E caminha para a manhã
(ou, quem sabe, voa).
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
De Chuva

“Vai logo. Vai logo. Vai logo!”. Chovia lá fora. As gotinhas batiam na janela fechada de madeira amarela, tentavam levar para dentro da casa aquele friozinho de chuva de outono. O sol já havia desistido de tentar burlar a união daquelas nuvens escuras, que ocupavam todos os espaços do céu e faziam se esquecer o que é noite e o que é dia. Ali, bem ali, no meio de uma cozinha de papel de parede forrando o branco e de chão de ladrinho de um vermelho queimado, um pingo de gente com listras vermelhas, amarelas e marrons, estava sentado. Tinha as perninhas cruzadas, os cabelos despenteados e a inquietação de criança que tem que ficar em casa em dia de chuva.
Não agüentou mais.
- Falta muito, mamãe?
A mãe, aquela típica dona de casa com viés de pintora, de vestido pastel e saia rodada; cabelos presos com tiara e riso de aquece-alma; deu um daqueles sorrisos de quem quer segurar a paciência consigo.
- Não, meu amor. Só mais um pouquinho.
O garotinho assentiu; já impaciente. Ajeitou-se em seu lugarzinho e tornou a encarar o vidro escuro. Queria mesmo era ver o que estava por detrás dele, porém, aquele vidro misterioso não revelava, e tudo que podia ser visto era o próprio reflexo. Na pia, o restou de louça, ainda por lavar. Vasilha, xícaras, colheres e pratos de cerâmica. Havia um pouco de espuma escorrendo, parecia até uma lagarta, que descia o móvel da pia tentando chegar à porta. Queria mesmo era estar lá fora.
A chuva não cessava, e isso destruía qualquer esperança. Já pedira para a mãe para sair de guarda-chuva, capa amarela, ou mesmo ficar ali, com a janela aberta, só sentindo os pinguinhos na pele fofa e rosada. Mas para tudo mamãe tinha resposta, e era sempre a mesma: não. Agora estava ali, a esperar. Por que raios demorava tanto o tempo a passar? Parecia até querer fazer piada dele, ver quanto tempo agüentava antes de perguntar novamente.
O garotinho, a principio, calou-se, levando para dentro de si a vontade de perguntar novamente. Levantou-se, correu até seu quarto e voltou, com algumas folhas de papel branco no braço e lápis de cor nas mãos. Olhou a mãe antes de começar. Arriscou outra pergunta.
- Falta muito ainda?
A paciência começara a escorrer, feito a chuva na janela amarela.
- Olha – começou a mãe – por que você não faz um barquinho? É o tempo de ficar pronto.
Os olhinhos do garotinho até brilharam.
- Daqueles bem grandes, como os dos filmes, mamãe?
- Isso!
- Posso levar ele navegar lá fora depois?
A mãe parou, encarou a criança. Sabia da vontade do pequeno de sair lá no jardim e tomar um pouco de chuva. Ela própria adorava fazer isso. Mas sabia também que a chuva estava muito fria. Ele ainda a encarava, enquanto ela pensava.
- Você vai parar de me perguntar se falta muito?
- Sim! – respondeu sem pestanejar aquele protótipo de homem.
- Tudo bem. Faça o melhor barco que você conseguir, e depois iremos lá fora para deixá-lo navegar.
- Oba!
E assim começou o trabalho minimamente detalhado daquele pingo de gente. Parecia até doutor estudioso do assunto. Dobrou com cuidado o papel branco, para não deixar furo no barco e não fazer os marinheiros se afogarem. Dobrou, desfez, arrumou e deu uma ajeitadinha nas pontas, e logo tinha em mãos o mais imponente dos barcos já feitos. Pintou, desenhou e rabiscou; afinal um barco como aqueles tinha que ter personalidade.
A mãe, quando viu, lembrou do que havia prometido. Suspirou e deu a mão para seu filho. Os dois avançaram pela cortinha d’água, fininha e gelada como só ela. Atravessaram o jardim de verdes escuros e águas pingantes e chegaram à rua, chegaram ao grande rio. Aquele garotinho ria a toa, à medida que ficava ensopado. Ela também, não havia como não rir, não havia como não sentir aquela coisa estranha que percorria o corpo todo e fazia a gente querer mostrar os dentes.
Colocaram o barquinho na correnteza assustadora do meio fio e viram muitos homens corajosos se despedindo de suas moças e partindo para o desconhecido.
- Para onde vai, mamãe?
- Vai chegar no mar.
Em que mar chegaria? Não importa, por que aquele imponente barquinho de papel não pararia enquanto não fosse inevitável. Desceu correndo a rua e virou a esquina. Sumiu. A essas alturas, o garotinho já estava imóvel, de braços e bocas abertas, com a língua esticada para as nuvens.
- Você esqueceu mesmo de me perguntar quanto faltava. – comentou a mãe, ensopada.
Ele nem notou, ou, pelo menos, fingiu não notar, a fim de prolongar aquele momento molhado. A mãe o observou, ia deixar ficar mais, mas eles deveriam entrar.
- Vamos pequeno. O bolo que fizemos está pronto.
O garotinho saiu do seu transe. Mirou, com brilho nos olhinhos miúdos, sorriu e entrou em casa correndo. A mãe acompanhou.
Ali, no meio da na cozinha com papel de parede forrando o branco e piso de ladrilho cor de vermelho queimado pingava um pingo de gente com listras vermelhas, amarelas e marrons. Tinha as perninhas cruzadas, os cabelos molhados, uma toalha nas costas e um enorme pedaço de bolo nas mãos. Valia-se do infinito para comer aquele pedaço. Olhou a janela. Chovia lá fora.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
De Mágica
Uma tremedeira começou e espalhou todinha por aquele corpinho pequeno, enquanto os batimentos começavam a se acelerar, à medida que as luzes iam enfraquecendo. Era uma inquietação tão forte que ele mal se agüentava no lugar. Apertava as mãozinhas nas grandes e velhas mãos do avô, e com os olhos fundos, mirava-o, esperando que se pronunciasse.
Silêncio.
- Vovô, estou com medo – finalmente admitiu.
- É só esperar um pouquinho. Você vai gostar – garantiu o velho homem de cabelos branqueados e rareados.
O garotinho engoliu seco. Mirou sua volta. Muitas pessoas ainda chegavam, fazendo esforço para enxergar à luz cada vez mais fraca. Alguns conversavam, animados, sobre as últimas notícias que saíram no jornal – um escândalo! – como sempre.
- Vovô... Está tão escuro aqui – insistiu, cada vez mais inquieto em seu amplo pequeno espaço de existência.
- Paciência, criança. Espere e verá.
O garotinho, de cabelos louros cortados à tigelinha, tinha medo de escuro. Porém, ouvir aquela voz envelhecida por veludo azul era mais reconfortante do que estar envolto no mesmo. Respirou fundo, ajeitou-se em seu lugar, tomou alguns daqueles doces coloridos do saco de papel queimado que estava entre suas perninhas finas e esperou. O burburinho aos poucos foi se aquietando. A sala, esta foi ficando mais e mais escura, feito quase breu de noite. Um certo tipo de inércia até parecia reger aquele lugar, e uma expectativa estranha se embrenhava em todos. E então: luz.
Um feixe grande assim, branco feito leite de café, que batia numa parede lisinha e explodia em imagem e cor. De trás, o som muito alto fazia vibrar as poltronas de feltro vermelho; que fazia vibrar aquele garotinho todo. Ele olhou para o avô, a boca empanturrada de doces e açúcares; e sorriu, com pedacinhos multicores ainda entre seus dentinhos de leite.
- Wow! – foi tudo que aquele pedaço de gente conseguiu dizer, extasiado demais com o glamour de tudo aquilo.
- Preste atenção agora – começou o vovô – Vamos ver uma história de mocinho e bandido, de donzela e muita ação!
Aquele velho homem, que sabe-se como ainda não fora levado com o tempo, explicava empolgado. Há tempos não sentia vivo aquele corpo, aquela alma; como sentia quando sorriu com o seu pedacinho de gente, que tanto o lembrava a ele mesmo.
O garotinho olhou, consentiu, e a partir de então, não desviou mais os olhos daquelas imagens frenéticas que não paravam na parede branca. Se viu mocinho, com arma na mão. Corria mais rápido que som, e a mira até parecia de espião de verdade. Lutou contra o bandido, salvou a mocinha e dela ganhou um beijo. Tudo isso passava ali na parede, e passava dentro dele, enquanto roubava docinho do saquinho entre as pernas.
Era clichê, mas para ele não. Ele era o filme, e lutava, e torcia, e se deliciava, bebendo daquela imagem toda e daquele som estarrecedor. Era novidade, feito tinta fresca em parede de vidro. Viu mais, olhou mais, e viveu.
E tudo passou. A história terminou, mas o garotinho não. Soltou um suspiro aliviado – ufa! – quando o bandido se rendeu, e depois das palavrinhas que subiam sem que ele as entendesse, ainda ficou, olhou. Não viu as luzes amareladas voltarem, e muito menos seu vovô a lhe chamar pelo nome.
- Carlinhos! Carlinhos!
Feito passe de mágica ou Houdini, saiu daquele transe que entrara não sabia como. Mirou o vovô.
- Vamos, criança. A sessão acabou. – explicou.
- Ah, vô! Não dá pra ficar só mais um pouquinho.
O velho homem revirou os olhos, talvez, por conta daquela dorzinha chata nas costas, quisesse ir logo. Encarou o garotinho, porém não resistiu; aquele olhinhos miúdos brilhavam demais. Deu um daqueles sorrisos discretos de canto de boca e assentiu – “só mais um pouquinho”.
Um pouquinho... Tempo suficiente para o garotinho ver e rever aquilo tudo de novo, por quanto tempo a vida o permitisse fazê-lo.
Silêncio.
- Vovô, estou com medo – finalmente admitiu.
- É só esperar um pouquinho. Você vai gostar – garantiu o velho homem de cabelos branqueados e rareados.
O garotinho engoliu seco. Mirou sua volta. Muitas pessoas ainda chegavam, fazendo esforço para enxergar à luz cada vez mais fraca. Alguns conversavam, animados, sobre as últimas notícias que saíram no jornal – um escândalo! – como sempre.
- Vovô... Está tão escuro aqui – insistiu, cada vez mais inquieto em seu amplo pequeno espaço de existência.
- Paciência, criança. Espere e verá.
O garotinho, de cabelos louros cortados à tigelinha, tinha medo de escuro. Porém, ouvir aquela voz envelhecida por veludo azul era mais reconfortante do que estar envolto no mesmo. Respirou fundo, ajeitou-se em seu lugar, tomou alguns daqueles doces coloridos do saco de papel queimado que estava entre suas perninhas finas e esperou. O burburinho aos poucos foi se aquietando. A sala, esta foi ficando mais e mais escura, feito quase breu de noite. Um certo tipo de inércia até parecia reger aquele lugar, e uma expectativa estranha se embrenhava em todos. E então: luz.
Um feixe grande assim, branco feito leite de café, que batia numa parede lisinha e explodia em imagem e cor. De trás, o som muito alto fazia vibrar as poltronas de feltro vermelho; que fazia vibrar aquele garotinho todo. Ele olhou para o avô, a boca empanturrada de doces e açúcares; e sorriu, com pedacinhos multicores ainda entre seus dentinhos de leite.
- Wow! – foi tudo que aquele pedaço de gente conseguiu dizer, extasiado demais com o glamour de tudo aquilo.
- Preste atenção agora – começou o vovô – Vamos ver uma história de mocinho e bandido, de donzela e muita ação!
Aquele velho homem, que sabe-se como ainda não fora levado com o tempo, explicava empolgado. Há tempos não sentia vivo aquele corpo, aquela alma; como sentia quando sorriu com o seu pedacinho de gente, que tanto o lembrava a ele mesmo.
O garotinho olhou, consentiu, e a partir de então, não desviou mais os olhos daquelas imagens frenéticas que não paravam na parede branca. Se viu mocinho, com arma na mão. Corria mais rápido que som, e a mira até parecia de espião de verdade. Lutou contra o bandido, salvou a mocinha e dela ganhou um beijo. Tudo isso passava ali na parede, e passava dentro dele, enquanto roubava docinho do saquinho entre as pernas.
Era clichê, mas para ele não. Ele era o filme, e lutava, e torcia, e se deliciava, bebendo daquela imagem toda e daquele som estarrecedor. Era novidade, feito tinta fresca em parede de vidro. Viu mais, olhou mais, e viveu.
E tudo passou. A história terminou, mas o garotinho não. Soltou um suspiro aliviado – ufa! – quando o bandido se rendeu, e depois das palavrinhas que subiam sem que ele as entendesse, ainda ficou, olhou. Não viu as luzes amareladas voltarem, e muito menos seu vovô a lhe chamar pelo nome.
- Carlinhos! Carlinhos!
Feito passe de mágica ou Houdini, saiu daquele transe que entrara não sabia como. Mirou o vovô.
- Vamos, criança. A sessão acabou. – explicou.
- Ah, vô! Não dá pra ficar só mais um pouquinho.
O velho homem revirou os olhos, talvez, por conta daquela dorzinha chata nas costas, quisesse ir logo. Encarou o garotinho, porém não resistiu; aquele olhinhos miúdos brilhavam demais. Deu um daqueles sorrisos discretos de canto de boca e assentiu – “só mais um pouquinho”.
Um pouquinho... Tempo suficiente para o garotinho ver e rever aquilo tudo de novo, por quanto tempo a vida o permitisse fazê-lo.
domingo, 3 de outubro de 2010
Eleitorado
Fui seguindo pelo meio fio. Era hora do almoço e todo o pessoal já tinha sumido, que nem some água em dia de sol. O dia era desses que é e não é; que está calor e frio, e que o tempo passa e arrasta. Dia indefinido.
Eu não tinha pretensões para um grande almoço. Qualquer coisa servia, até por que quase matava cachorro a grito. Tempo difícil pra quem trabalha, dizem que por culpa de eleição. Realmente, escolher um governante nesse país era coisa que requer trabalho, tempo e dinheiro, principalmente.
No fim, optei pela barraquinha de rua que vendia pastel. Da feira, nem sinal, só o cheiro de bacalhau velho e açafrão. Fora dali, a cidade borbulhava com as tais eleições, pensei até que iam embrulhar meu almoço naqueles papeizinhos de propaganda.
Peguei, paguei, segui a volta pelo meio fio. Ainda tinha algum tempo para engolir a comida, e decidi sentar em algum lugar, na tentativa de livrar meus pés do ataque de milhões de outros papeizinhos, previamente abandonados no asfalto esburacado. Seria graça de o Senhor fazer o tempo se conservar seco. Caso contrário, era bom comprarmos nossos coletes infláveis.
A cidade nessas horas nem parece a mesma. Quase temos outdoors de novo, tamanho número de propagandas. E na TV parece que o mundo virou o lugar ideal - não se anuncia mais desgraça como antigamente. O fenômeno eleitoral ate chega no botequim, se bobear. Chope gelado e o embate para escolher o político que melhor vai administrar a conta - própria.
Termino, a tempo de ver um daqueles carros de campanha. Na falta de música, propaganda. Por que não? Deveria era deixar o trabalho fatídico e voltar para casa pra trabalhar na minha decisão votística, afinal, temos todos obrigação, como cidadãos civilizados. Mas quem vai sustentar minha ajuda ao Estado quando os votos forem contados?
No fim, é tudo a mesma coisa. Vou-me de volta ao meu cubículo, senão quando sumirem os papeizinhos vai sumir o resto de dignidade que tenho. Quem dera estar inserido nessa política, assim, pelo menos esse problema eu não teria.
- Eleições 2010 -
Eu não tinha pretensões para um grande almoço. Qualquer coisa servia, até por que quase matava cachorro a grito. Tempo difícil pra quem trabalha, dizem que por culpa de eleição. Realmente, escolher um governante nesse país era coisa que requer trabalho, tempo e dinheiro, principalmente.
No fim, optei pela barraquinha de rua que vendia pastel. Da feira, nem sinal, só o cheiro de bacalhau velho e açafrão. Fora dali, a cidade borbulhava com as tais eleições, pensei até que iam embrulhar meu almoço naqueles papeizinhos de propaganda.
Peguei, paguei, segui a volta pelo meio fio. Ainda tinha algum tempo para engolir a comida, e decidi sentar em algum lugar, na tentativa de livrar meus pés do ataque de milhões de outros papeizinhos, previamente abandonados no asfalto esburacado. Seria graça de o Senhor fazer o tempo se conservar seco. Caso contrário, era bom comprarmos nossos coletes infláveis.
A cidade nessas horas nem parece a mesma. Quase temos outdoors de novo, tamanho número de propagandas. E na TV parece que o mundo virou o lugar ideal - não se anuncia mais desgraça como antigamente. O fenômeno eleitoral ate chega no botequim, se bobear. Chope gelado e o embate para escolher o político que melhor vai administrar a conta - própria.
Termino, a tempo de ver um daqueles carros de campanha. Na falta de música, propaganda. Por que não? Deveria era deixar o trabalho fatídico e voltar para casa pra trabalhar na minha decisão votística, afinal, temos todos obrigação, como cidadãos civilizados. Mas quem vai sustentar minha ajuda ao Estado quando os votos forem contados?
No fim, é tudo a mesma coisa. Vou-me de volta ao meu cubículo, senão quando sumirem os papeizinhos vai sumir o resto de dignidade que tenho. Quem dera estar inserido nessa política, assim, pelo menos esse problema eu não teria.
- Eleições 2010 -
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