sábado, 13 de novembro de 2010

Rita

Ritinha já fora bela. Os olhinhos grandes, simétricos e sérios, eram contornados com renda indiana e longos cílios negros. E de um azul... Dava quase para ouvir o mar batendo na retina fina, querendo sair. Seu nariz, arrebitado, era desculpa para uns chamarem “metida”. Para outros, apenas “bela”, só assim. A boquinha fina, delicada, era cor de morango maduro apanhado no pé, fazendo uma curvinha para cima – talvez um sorriso de quem diz tudo e nada. E tinha uma pequenina pinta no cantinho.

Os cabelos, de um escuro cor de mogno, eram encaracolados de raiz a pontas. Presos na frente, à moda francesinha, por pequenos alfinetes perolados. E nos outros cachos, pequeninas pérolas, que, postas a esmo, lhe faziam uma coroinha quase que de verdade.

Ritinha tinha um leque, desses de papel, com desenho de flor de jasmim e bambu. Dizia-se chique um leque naquelas épocas. E vestidos? Muitos, abalonados, rendados, simples de usar no jardim e chicosos de festas. Mas o de preferência daquela criaturinha miúda era o vestido cor dos olhos, que tinha manguinhas de seda, estreitava na cinturinha fina e vinha cheio de rendinhas brancas, à barra de saia. Como ficava bela com ele! Bela Ritinha.

A pele alva era de maciez nunca não vista, e dava medo de tocar Ritinha, medo de machucar aquela boniteza toda. Parecia que só em toque se arrepiava toda ela, apessegando as bochechas de almofadinha. Essa era Ritinha, toda feita de inhos e inhas. De passar tardes no jardim de casa a tomar chás e a ter conversas íntimas com sua melhor amiga; e de dar longos passeios na cidade, sempre bem vestida, de mãos dadas a ela. Encanto que era aos olhos todos – ninguém nunca vira antes nada igual.

Mas soprou vento, e tempo passou. Passou e não levou Ritinha consigo. Ela agora está ali, encostada num canto qualquer, esquecida. Sua boca não tem mais aquele sorriso de amante. É boca triste, cor de ameixa passada e deixada. Os cachos se desfazem aos poucos e deixam cair as pequenas pérolas que, uma a uma, fazem do colo e do chão outra coroa.

Seu vestido amarrotou, perdeu a cor; e as rendas agora servem apenas de passado, rasgado. Os olhos não marejam mais, parecem mesmo é uma bacia d’água cor do que já foi. Um cinza melancólico, apagado. Não mais toma chá no jardim ou faz seus passeios, preferindo a familiaridade daquele canto. Não se interessou nunca por rapaz algum, e permanece agora só. Essa foi Ritinha, e essa ainda a era.

Agora Rita... Crescida como estava, nem parecia mais menina. Ocupava suas manhãs arrumando os longos cachos acastanhados, e cantarolava as cantigas apaixonadas que traziam os vendedores de cocada no fim de tarde. Os rapazes passavam à sua janela, com cravos, rosas, begônias e margaridas, o coração a mil, esperando nem que fosse um sorriso de Rita. Bela Rita, moça feita que não mais brincava de boneca.

Debruçava-se a janela, e mar contemplava mar, que batia na areia cor de pele e dava bons dias e boas noites. À hora quente de sol inteiro, sentava-se ao banco do jardim com livro no colo, instruída que fosse; amante de histórias e estórias. E em fim de tardes saía; braços dados com moços de flores. Hoje mesmo se arrumava, punha seu vestido azul e água com cheiro de rosas. Ia com o moço dos cravos.

Ritinha mirava, via. Não se importava, nem guardava rancores muitos. Bem sabia que tempo soprava e passava. E que ela própria era porcelanas e vidros, eterna. Mas nunca carnes e ossos.