Terminava a hora da sesta e todos se preparavam para as obrigações que se estenderiam até o pôr-do-sol. Joana escolheu o vestido branco de alcinha, rendado, que lhe caia tão bem na cinturinha fina e era adornado por um cinto fino, preto. Colocou seus sapatos pretos de verniz e o colar, feito com pérolas de sua mãe. Passou batom vermelho, boca madura; deu uma ajeitada nos cabelos cor de mogno, arrumados à moda, em um rabo de cavalo à Brigitte Bardot, e saiu.
Maria, por sua vez, escolheu a saia rodada de cintura alta e a blusa, de mangas curtas, cor de pedra turquesa, a combinar com seus olhos. Passou batom cor de boca, delineador negro – indispensável para quem dava valor aos olhos – e arrumou os cabelos louros num coque comportado, de quem dava boas impressões. Pegou os óculos de sol cor âmbar. Saiu.
Joana se encontrou com Maria na porta. As mães não apoiavam - como conseguiriam marido decente assim? - mas, mesmo assim, iam ver um dos filmes estrangeiros acabados de entrar em cartaz, comedia francesa chamada "Meu Tio", de um tal de Jacques Tati.
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Em hora de almoço, restaurante de rua fica cheio que não dá pra entrar. Joana usava calça de cintura alta e blusa branca. Tinha os cabelos compridos, numa trança; e passava renda indiana nos olhos, em lugar de ficar apenas no batom vermelho, que tanto gostava. Tinha uma dessas bolsas que imitavam as tais Kelly, sucesso na Europa e de preço impagável.
Maria, por sua vez, sendo a moça ousada que era, usava minissaia e uma blusinha rendada, meio azul, meio o quê. Seus cabelos lhe chegavam à cintura, e, secretamente, ela carregava hinos americanos de revolução. Tinha agora uns óculos que chamavam de “aviador”, grande sucesso de uns tempos para cá. Saiu.
Ambas não tinham planos para o almoço em um fast food de rua, preferiam esquecer os protestos - não são coisa pra mulher casada - e comer pipoca, assistindo ao novo drama espanhol que acabara de chegar, o falado “Cria Cuervos”, nome tão sedutor de exótico.
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Ninguém fica em casa no meio da tarde em cidade grande. Ainda mais se grande for a tradição de fugir a namorados e maridos para se encontrar. Joana se decidiu por um vestido branco, daqueles bem retos que não dão margem à cintura e assentam nos corpos que procuram recato. Passou batom vermelho, arrumou os cabelos cor de prata em seu corte curto; pegou a bolsa grande – tal qual sacola de feira – sempre na moda que estava.
Maria, por sua vez, resolveu-se pelo vestido cor de pedra, de olhos, de tanto recato quanto o de Joana; passou o batom cor de boca e sombra clara, para dar vida ao rosto de passados. Arrumou os cabelos, ainda longos, numa trança de lado; pegou seus óculos de grau com aro dourado e a bolsinha pequena e saiu.
Iam ver um filme de parceria entre a Austrália e a França, e que, pelo trailer, parecia daqueles a lhes lembrar os tempos de moça, em seus intermináveis autos e baixos. O nome do filme era “A Árvore”, ou coisa parecida.
- Homenagem ao Cine Belas Artes, seja qual for seu destino -

