segunda-feira, 18 de abril de 2011

Amado Buarque na Ópera do Cais

De hora pra outra, assim sem aviso,
Vem cheiro de mar, forte, salgado.
O marasmo quente, o som da onda batendo nas pedras, no cais.
Os saveiros vem vindo, trazem peixe.
Nas ruas esparrama cheiro de moqueca com pimenta do reino,
E nos Afogados se bebe uma rodada de pinga.

O malandro compõe uns versos de samba,
Pra morena que enlouquece com cheiro de cangote.
O pai de santo prepara os encantos,
A negra vende cocada na praça,
E a meninada corre nas ruas,
Bala, Baldo, Dora. Carrossel.

E na noite as putas saem pra amar,
Sacrífico do ofício.
O trabalhador do cais volta pra casa,
O burguês descansa na varanda, toma vinho tinto.

No Bom Fim o padre guarda o cálice,
Na macumba Ogum desce,
E Maria quer de volta seu homem,
Diz reza pra Iemanjá.

A caboclinha é derrubada no areal,
O Capitão deixa de capitanar.
Vai logo pro samba do morro,
Encontrar com Overseas. Além mar.

Eis que vai até raiar dia.
Até saveiro zarpar,
Camarada cantar, morena dançar,
No Ilhéus da Bahia de Janeiro.

Universo de fois e seriam,
De samba, passado, nostalgia.