Uma tremedeira começou e espalhou todinha por aquele corpinho pequeno, enquanto os batimentos começavam a se acelerar, à medida que as luzes iam enfraquecendo. Era uma inquietação tão forte que ele mal se agüentava no lugar. Apertava as mãozinhas nas grandes e velhas mãos do avô, e com os olhos fundos, mirava-o, esperando que se pronunciasse.
Silêncio.
- Vovô, estou com medo – finalmente admitiu.
- É só esperar um pouquinho. Você vai gostar – garantiu o velho homem de cabelos branqueados e rareados.
O garotinho engoliu seco. Mirou sua volta. Muitas pessoas ainda chegavam, fazendo esforço para enxergar à luz cada vez mais fraca. Alguns conversavam, animados, sobre as últimas notícias que saíram no jornal – um escândalo! – como sempre.
- Vovô... Está tão escuro aqui – insistiu, cada vez mais inquieto em seu amplo pequeno espaço de existência.
- Paciência, criança. Espere e verá.
O garotinho, de cabelos louros cortados à tigelinha, tinha medo de escuro. Porém, ouvir aquela voz envelhecida por veludo azul era mais reconfortante do que estar envolto no mesmo. Respirou fundo, ajeitou-se em seu lugar, tomou alguns daqueles doces coloridos do saco de papel queimado que estava entre suas perninhas finas e esperou. O burburinho aos poucos foi se aquietando. A sala, esta foi ficando mais e mais escura, feito quase breu de noite. Um certo tipo de inércia até parecia reger aquele lugar, e uma expectativa estranha se embrenhava em todos. E então: luz.
Um feixe grande assim, branco feito leite de café, que batia numa parede lisinha e explodia em imagem e cor. De trás, o som muito alto fazia vibrar as poltronas de feltro vermelho; que fazia vibrar aquele garotinho todo. Ele olhou para o avô, a boca empanturrada de doces e açúcares; e sorriu, com pedacinhos multicores ainda entre seus dentinhos de leite.
- Wow! – foi tudo que aquele pedaço de gente conseguiu dizer, extasiado demais com o glamour de tudo aquilo.
- Preste atenção agora – começou o vovô – Vamos ver uma história de mocinho e bandido, de donzela e muita ação!
Aquele velho homem, que sabe-se como ainda não fora levado com o tempo, explicava empolgado. Há tempos não sentia vivo aquele corpo, aquela alma; como sentia quando sorriu com o seu pedacinho de gente, que tanto o lembrava a ele mesmo.
O garotinho olhou, consentiu, e a partir de então, não desviou mais os olhos daquelas imagens frenéticas que não paravam na parede branca. Se viu mocinho, com arma na mão. Corria mais rápido que som, e a mira até parecia de espião de verdade. Lutou contra o bandido, salvou a mocinha e dela ganhou um beijo. Tudo isso passava ali na parede, e passava dentro dele, enquanto roubava docinho do saquinho entre as pernas.
Era clichê, mas para ele não. Ele era o filme, e lutava, e torcia, e se deliciava, bebendo daquela imagem toda e daquele som estarrecedor. Era novidade, feito tinta fresca em parede de vidro. Viu mais, olhou mais, e viveu.
E tudo passou. A história terminou, mas o garotinho não. Soltou um suspiro aliviado – ufa! – quando o bandido se rendeu, e depois das palavrinhas que subiam sem que ele as entendesse, ainda ficou, olhou. Não viu as luzes amareladas voltarem, e muito menos seu vovô a lhe chamar pelo nome.
- Carlinhos! Carlinhos!
Feito passe de mágica ou Houdini, saiu daquele transe que entrara não sabia como. Mirou o vovô.
- Vamos, criança. A sessão acabou. – explicou.
- Ah, vô! Não dá pra ficar só mais um pouquinho.
O velho homem revirou os olhos, talvez, por conta daquela dorzinha chata nas costas, quisesse ir logo. Encarou o garotinho, porém não resistiu; aquele olhinhos miúdos brilhavam demais. Deu um daqueles sorrisos discretos de canto de boca e assentiu – “só mais um pouquinho”.
Um pouquinho... Tempo suficiente para o garotinho ver e rever aquilo tudo de novo, por quanto tempo a vida o permitisse fazê-lo.
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