
“Vai logo. Vai logo. Vai logo!”. Chovia lá fora. As gotinhas batiam na janela fechada de madeira amarela, tentavam levar para dentro da casa aquele friozinho de chuva de outono. O sol já havia desistido de tentar burlar a união daquelas nuvens escuras, que ocupavam todos os espaços do céu e faziam se esquecer o que é noite e o que é dia. Ali, bem ali, no meio de uma cozinha de papel de parede forrando o branco e de chão de ladrinho de um vermelho queimado, um pingo de gente com listras vermelhas, amarelas e marrons, estava sentado. Tinha as perninhas cruzadas, os cabelos despenteados e a inquietação de criança que tem que ficar em casa em dia de chuva.
Não agüentou mais.
- Falta muito, mamãe?
A mãe, aquela típica dona de casa com viés de pintora, de vestido pastel e saia rodada; cabelos presos com tiara e riso de aquece-alma; deu um daqueles sorrisos de quem quer segurar a paciência consigo.
- Não, meu amor. Só mais um pouquinho.
O garotinho assentiu; já impaciente. Ajeitou-se em seu lugarzinho e tornou a encarar o vidro escuro. Queria mesmo era ver o que estava por detrás dele, porém, aquele vidro misterioso não revelava, e tudo que podia ser visto era o próprio reflexo. Na pia, o restou de louça, ainda por lavar. Vasilha, xícaras, colheres e pratos de cerâmica. Havia um pouco de espuma escorrendo, parecia até uma lagarta, que descia o móvel da pia tentando chegar à porta. Queria mesmo era estar lá fora.
A chuva não cessava, e isso destruía qualquer esperança. Já pedira para a mãe para sair de guarda-chuva, capa amarela, ou mesmo ficar ali, com a janela aberta, só sentindo os pinguinhos na pele fofa e rosada. Mas para tudo mamãe tinha resposta, e era sempre a mesma: não. Agora estava ali, a esperar. Por que raios demorava tanto o tempo a passar? Parecia até querer fazer piada dele, ver quanto tempo agüentava antes de perguntar novamente.
O garotinho, a principio, calou-se, levando para dentro de si a vontade de perguntar novamente. Levantou-se, correu até seu quarto e voltou, com algumas folhas de papel branco no braço e lápis de cor nas mãos. Olhou a mãe antes de começar. Arriscou outra pergunta.
- Falta muito ainda?
A paciência começara a escorrer, feito a chuva na janela amarela.
- Olha – começou a mãe – por que você não faz um barquinho? É o tempo de ficar pronto.
Os olhinhos do garotinho até brilharam.
- Daqueles bem grandes, como os dos filmes, mamãe?
- Isso!
- Posso levar ele navegar lá fora depois?
A mãe parou, encarou a criança. Sabia da vontade do pequeno de sair lá no jardim e tomar um pouco de chuva. Ela própria adorava fazer isso. Mas sabia também que a chuva estava muito fria. Ele ainda a encarava, enquanto ela pensava.
- Você vai parar de me perguntar se falta muito?
- Sim! – respondeu sem pestanejar aquele protótipo de homem.
- Tudo bem. Faça o melhor barco que você conseguir, e depois iremos lá fora para deixá-lo navegar.
- Oba!
E assim começou o trabalho minimamente detalhado daquele pingo de gente. Parecia até doutor estudioso do assunto. Dobrou com cuidado o papel branco, para não deixar furo no barco e não fazer os marinheiros se afogarem. Dobrou, desfez, arrumou e deu uma ajeitadinha nas pontas, e logo tinha em mãos o mais imponente dos barcos já feitos. Pintou, desenhou e rabiscou; afinal um barco como aqueles tinha que ter personalidade.
A mãe, quando viu, lembrou do que havia prometido. Suspirou e deu a mão para seu filho. Os dois avançaram pela cortinha d’água, fininha e gelada como só ela. Atravessaram o jardim de verdes escuros e águas pingantes e chegaram à rua, chegaram ao grande rio. Aquele garotinho ria a toa, à medida que ficava ensopado. Ela também, não havia como não rir, não havia como não sentir aquela coisa estranha que percorria o corpo todo e fazia a gente querer mostrar os dentes.
Colocaram o barquinho na correnteza assustadora do meio fio e viram muitos homens corajosos se despedindo de suas moças e partindo para o desconhecido.
- Para onde vai, mamãe?
- Vai chegar no mar.
Em que mar chegaria? Não importa, por que aquele imponente barquinho de papel não pararia enquanto não fosse inevitável. Desceu correndo a rua e virou a esquina. Sumiu. A essas alturas, o garotinho já estava imóvel, de braços e bocas abertas, com a língua esticada para as nuvens.
- Você esqueceu mesmo de me perguntar quanto faltava. – comentou a mãe, ensopada.
Ele nem notou, ou, pelo menos, fingiu não notar, a fim de prolongar aquele momento molhado. A mãe o observou, ia deixar ficar mais, mas eles deveriam entrar.
- Vamos pequeno. O bolo que fizemos está pronto.
O garotinho saiu do seu transe. Mirou, com brilho nos olhinhos miúdos, sorriu e entrou em casa correndo. A mãe acompanhou.
Ali, no meio da na cozinha com papel de parede forrando o branco e piso de ladrilho cor de vermelho queimado pingava um pingo de gente com listras vermelhas, amarelas e marrons. Tinha as perninhas cruzadas, os cabelos molhados, uma toalha nas costas e um enorme pedaço de bolo nas mãos. Valia-se do infinito para comer aquele pedaço. Olhou a janela. Chovia lá fora.
Agradecimento especial à Deborah Nosek pela foto, a qual eu roubei na cara dura.
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