quinta-feira, 7 de outubro de 2010

De Chuva


“Vai logo. Vai logo. Vai logo!”. Chovia lá fora. As gotinhas batiam na janela fechada de madeira amarela, tentavam levar para dentro da casa aquele friozinho de chuva de outono. O sol já havia desistido de tentar burlar a união daquelas nuvens escuras, que ocupavam todos os espaços do céu e faziam se esquecer o que é noite e o que é dia. Ali, bem ali, no meio de uma cozinha de papel de parede forrando o branco e de chão de ladrinho de um vermelho queimado, um pingo de gente com listras vermelhas, amarelas e marrons, estava sentado. Tinha as perninhas cruzadas, os cabelos despenteados e a inquietação de criança que tem que ficar em casa em dia de chuva.

Não agüentou mais.

- Falta muito, mamãe?

A mãe, aquela típica dona de casa com viés de pintora, de vestido pastel e saia rodada; cabelos presos com tiara e riso de aquece-alma; deu um daqueles sorrisos de quem quer segurar a paciência consigo.

- Não, meu amor. Só mais um pouquinho.

O garotinho assentiu; já impaciente. Ajeitou-se em seu lugarzinho e tornou a encarar o vidro escuro. Queria mesmo era ver o que estava por detrás dele, porém, aquele vidro misterioso não revelava, e tudo que podia ser visto era o próprio reflexo. Na pia, o restou de louça, ainda por lavar. Vasilha, xícaras, colheres e pratos de cerâmica. Havia um pouco de espuma escorrendo, parecia até uma lagarta, que descia o móvel da pia tentando chegar à porta. Queria mesmo era estar lá fora.

A chuva não cessava, e isso destruía qualquer esperança. Já pedira para a mãe para sair de guarda-chuva, capa amarela, ou mesmo ficar ali, com a janela aberta, só sentindo os pinguinhos na pele fofa e rosada. Mas para tudo mamãe tinha resposta, e era sempre a mesma: não. Agora estava ali, a esperar. Por que raios demorava tanto o tempo a passar? Parecia até querer fazer piada dele, ver quanto tempo agüentava antes de perguntar novamente.

O garotinho, a principio, calou-se, levando para dentro de si a vontade de perguntar novamente. Levantou-se, correu até seu quarto e voltou, com algumas folhas de papel branco no braço e lápis de cor nas mãos. Olhou a mãe antes de começar. Arriscou outra pergunta.

- Falta muito ainda?

A paciência começara a escorrer, feito a chuva na janela amarela.

- Olha – começou a mãe – por que você não faz um barquinho? É o tempo de ficar pronto.

Os olhinhos do garotinho até brilharam.

- Daqueles bem grandes, como os dos filmes, mamãe?

- Isso!

- Posso levar ele navegar lá fora depois?

A mãe parou, encarou a criança. Sabia da vontade do pequeno de sair lá no jardim e tomar um pouco de chuva. Ela própria adorava fazer isso. Mas sabia também que a chuva estava muito fria. Ele ainda a encarava, enquanto ela pensava.

- Você vai parar de me perguntar se falta muito?

- Sim! – respondeu sem pestanejar aquele protótipo de homem.

- Tudo bem. Faça o melhor barco que você conseguir, e depois iremos lá fora para deixá-lo navegar.

- Oba!

E assim começou o trabalho minimamente detalhado daquele pingo de gente. Parecia até doutor estudioso do assunto. Dobrou com cuidado o papel branco, para não deixar furo no barco e não fazer os marinheiros se afogarem. Dobrou, desfez, arrumou e deu uma ajeitadinha nas pontas, e logo tinha em mãos o mais imponente dos barcos já feitos. Pintou, desenhou e rabiscou; afinal um barco como aqueles tinha que ter personalidade.

A mãe, quando viu, lembrou do que havia prometido. Suspirou e deu a mão para seu filho. Os dois avançaram pela cortinha d’água, fininha e gelada como só ela. Atravessaram o jardim de verdes escuros e águas pingantes e chegaram à rua, chegaram ao grande rio. Aquele garotinho ria a toa, à medida que ficava ensopado. Ela também, não havia como não rir, não havia como não sentir aquela coisa estranha que percorria o corpo todo e fazia a gente querer mostrar os dentes.
Colocaram o barquinho na correnteza assustadora do meio fio e viram muitos homens corajosos se despedindo de suas moças e partindo para o desconhecido.

- Para onde vai, mamãe?

- Vai chegar no mar.

Em que mar chegaria? Não importa, por que aquele imponente barquinho de papel não pararia enquanto não fosse inevitável. Desceu correndo a rua e virou a esquina. Sumiu. A essas alturas, o garotinho já estava imóvel, de braços e bocas abertas, com a língua esticada para as nuvens.

- Você esqueceu mesmo de me perguntar quanto faltava. – comentou a mãe, ensopada.

Ele nem notou, ou, pelo menos, fingiu não notar, a fim de prolongar aquele momento molhado. A mãe o observou, ia deixar ficar mais, mas eles deveriam entrar.

- Vamos pequeno. O bolo que fizemos está pronto.

O garotinho saiu do seu transe. Mirou, com brilho nos olhinhos miúdos, sorriu e entrou em casa correndo. A mãe acompanhou.

Ali, no meio da na cozinha com papel de parede forrando o branco e piso de ladrilho cor de vermelho queimado pingava um pingo de gente com listras vermelhas, amarelas e marrons. Tinha as perninhas cruzadas, os cabelos molhados, uma toalha nas costas e um enorme pedaço de bolo nas mãos. Valia-se do infinito para comer aquele pedaço. Olhou a janela. Chovia lá fora.

Um comentário:

  1. Agradecimento especial à Deborah Nosek pela foto, a qual eu roubei na cara dura.

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