quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Morre


Enquanto o sol baixava naquele horizonte de sonhos, as almas livres corriam por um jardim de alegrias e esperanças. Não havia idade, não havia distinção. Era uma igualdade que chegava até a intimidar. Mas elas não ligavam. Corriam e corriam, exibindo corpos prateados, dourados. Besuntavam-os com água de ouro, com colônia de tempo; bebiam elixir de vida.

E em meio à dança pagã, os pássaros começaram a cantar. Despediam-se do Apolo que não era cão. De súbito, aquelas almas pararam de dançar. Sentaram-se cada qual a seu tempo, e todas se juntaram. Parecia que os pássaros cantaram mais alto, mais bucólicos. Contemplavam vida e morte, morte de Apolo, morte de um dia. Parecia paradoxo. Era paradoxo.

O céu estava indeciso, não sabia se chorava ou sorria. Variava de laranja de alegria a roxo de zelo. Devia ser coisa misteriosa. Coisa de Deus, ou, quem sabe, do Diabo. Talvez até desse misterioso que nos acompanha a todos e assiste.

De qualquer modo, isso não importa, pois o céu sangra. Os pássaros choram e aquelas almas ainda dançam. A morte nunca me pareceu tão divina, a ponto de nascer e morrer com ela.




Cordisburgo. 06/09/2010

2 comentários:

  1. Que lindo, Lara.

    Aliás... "essa falta de inspiração se chama amor". Estou considerando a possibilidade de ser verdade. Pelo jeito, o amor só inspira enquanto o idealizamos.
    Ocupo meu tempo sentindo, agora.

    ResponderExcluir
  2. Acho que você não poderia fazer coisa melhor que essa. De verdade.

    ResponderExcluir