sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Um Sim


Tudo começou com um sim. Um sorriso, os abraços, beijos e lágrimas. Um sentimento estranho, de alívio e tristeza, tomando conta de todos; forma estranha de se começar o dia. E que estranho. Mas durou pouco, pois pouco antes dos ponteiros completarem a volta dos meios dias, saímos todos, em direção tão conhecida. Não havia mais uma distinção, uma diferença. Era uma classe, o Terceiro; e fora aqueles que, por devida compostura de “excluídos”, eramos todos águas e cores.

O tão esperado momento durou pouco, mas foi suficiente para que todos tivessem seus anos – e almas – lavados.

E então, foi uma correria só, para os mais velhos, em fortes abraços; e uns para os outros, na rua tão conhecida. Comemoramos aos gritos, aos berros, aos sons de bombinhas e fogos. E, se não bastasse a alegria de estarmos ensopados, ficamos todos pintados. E uma explosão de cores na frente do TUCA, com uma guerra de tinta nunca antes vista. Calouros? Não, apenas colegiais, comemorando o fim de um ano estranho, difícil, marcados pelas rivalidades e discórdias. Mas, ao mesmo tempo, colegiais que disseram sim.

Pois tudo, no mundo, começou com um sim.

sábado, 13 de novembro de 2010

Rita

Ritinha já fora bela. Os olhinhos grandes, simétricos e sérios, eram contornados com renda indiana e longos cílios negros. E de um azul... Dava quase para ouvir o mar batendo na retina fina, querendo sair. Seu nariz, arrebitado, era desculpa para uns chamarem “metida”. Para outros, apenas “bela”, só assim. A boquinha fina, delicada, era cor de morango maduro apanhado no pé, fazendo uma curvinha para cima – talvez um sorriso de quem diz tudo e nada. E tinha uma pequenina pinta no cantinho.

Os cabelos, de um escuro cor de mogno, eram encaracolados de raiz a pontas. Presos na frente, à moda francesinha, por pequenos alfinetes perolados. E nos outros cachos, pequeninas pérolas, que, postas a esmo, lhe faziam uma coroinha quase que de verdade.

Ritinha tinha um leque, desses de papel, com desenho de flor de jasmim e bambu. Dizia-se chique um leque naquelas épocas. E vestidos? Muitos, abalonados, rendados, simples de usar no jardim e chicosos de festas. Mas o de preferência daquela criaturinha miúda era o vestido cor dos olhos, que tinha manguinhas de seda, estreitava na cinturinha fina e vinha cheio de rendinhas brancas, à barra de saia. Como ficava bela com ele! Bela Ritinha.

A pele alva era de maciez nunca não vista, e dava medo de tocar Ritinha, medo de machucar aquela boniteza toda. Parecia que só em toque se arrepiava toda ela, apessegando as bochechas de almofadinha. Essa era Ritinha, toda feita de inhos e inhas. De passar tardes no jardim de casa a tomar chás e a ter conversas íntimas com sua melhor amiga; e de dar longos passeios na cidade, sempre bem vestida, de mãos dadas a ela. Encanto que era aos olhos todos – ninguém nunca vira antes nada igual.

Mas soprou vento, e tempo passou. Passou e não levou Ritinha consigo. Ela agora está ali, encostada num canto qualquer, esquecida. Sua boca não tem mais aquele sorriso de amante. É boca triste, cor de ameixa passada e deixada. Os cachos se desfazem aos poucos e deixam cair as pequenas pérolas que, uma a uma, fazem do colo e do chão outra coroa.

Seu vestido amarrotou, perdeu a cor; e as rendas agora servem apenas de passado, rasgado. Os olhos não marejam mais, parecem mesmo é uma bacia d’água cor do que já foi. Um cinza melancólico, apagado. Não mais toma chá no jardim ou faz seus passeios, preferindo a familiaridade daquele canto. Não se interessou nunca por rapaz algum, e permanece agora só. Essa foi Ritinha, e essa ainda a era.

Agora Rita... Crescida como estava, nem parecia mais menina. Ocupava suas manhãs arrumando os longos cachos acastanhados, e cantarolava as cantigas apaixonadas que traziam os vendedores de cocada no fim de tarde. Os rapazes passavam à sua janela, com cravos, rosas, begônias e margaridas, o coração a mil, esperando nem que fosse um sorriso de Rita. Bela Rita, moça feita que não mais brincava de boneca.

Debruçava-se a janela, e mar contemplava mar, que batia na areia cor de pele e dava bons dias e boas noites. À hora quente de sol inteiro, sentava-se ao banco do jardim com livro no colo, instruída que fosse; amante de histórias e estórias. E em fim de tardes saía; braços dados com moços de flores. Hoje mesmo se arrumava, punha seu vestido azul e água com cheiro de rosas. Ia com o moço dos cravos.

Ritinha mirava, via. Não se importava, nem guardava rancores muitos. Bem sabia que tempo soprava e passava. E que ela própria era porcelanas e vidros, eterna. Mas nunca carnes e ossos.

domingo, 31 de outubro de 2010

À uma amiga minha

Com esse cheiro de café de aumentar alma, eu quase que consigo ouvir tua risada, bem do meu lado a pé de ouvido. É risada de tempo, sim; um tempo que passou, mas que insiste em voltar e retornar. Retomar. Tempo de café, de risadas, fotografias e livros empoeirados. Que mais? Para gentes como nós, nada nunca foi demais.

Fico aqui imaginando por que bandas anda você. Se caminhas como menina que fora, de laços e fitas e vestidos de princesa; ou se te rebelou contra o mundo e mundos, e agora corres por ai com olhos negros de brilho castanho. Com essa tua alma inquieta, fascina sempre quem tem a coragem de ficar por perto. E se não bastaram todas as bobagens proferidas em tardes de semanas (ou não-semanas) e em manhãs preguiçosas de pluralidades infantis, os diversificados ramalhetes de assuntos sérios devem de servir. Não que fôssemos exatamente sérias – quem de fato o é?

Se te lembras, sonhos muitos tivemos; tantos que dava até para distribuir por ai. Sonho que se sonha, mas que também se vive. Recomendo que deixes teu baixo de lado, por via das dúvidas. E amor? Se todos precisamos, por que não sobrevivemos dele? Tarefa difícil, vez que se prova do amor que não o nosso. Nossa fala é incontável, de palavra infinita e muitas vezes, nula. Nem sempre se precisa de palavras para você. Ou mesmo para mim, para nós.

Você me chama evolução o jeito novo de pensar mundo e escrever pensamento. Ninguém não pode concordar. Mas de certa forma é só aquilo que nossa inocência não nos deixou descobrir antes – juntas. Tenho o prazer de te ver crescer assim, em palavras. Prazer e desprazer, por que nada justifica não estar a pé de ouvido todo dia assim. Mas já não precisamos disso. Estamos além.

Café pode ser mexerica, perfume ou aquele cheiro de almoço e vinho tinto da tua casa. Confundem-se, misturando idéia e memória. Sinto falta da presença, mas ela não é relevante, posto que um dia com você valha mais do que uma vida toda de meias-horas e hora e meia. Se te encontro em palavra e cheiro, presença e ausência, ou tudo isso de forma a não se distinguir; de todo, não importa. Nesse plano, nesse texto; ou mesmo quebrando qualquer barreira imposta, sei que te vejo e revejo. Por que tempo insiste em retomar o que não foi e ainda está para ser. Volta e retoma. Retorna.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

De Barro


Acordamos. A manhã não era manhã; era ainda noite. Mas, mesmo assim, acordamos. Tinha alvoroço grande lá fora, uma coisa que era toda pios e gritos. Em senso falho e curiosidade muita, livramo-nos das roupas de dormir e do calor de cama e saímos – a pés descalços.

A terra vinha batida, culpa de orvalho. O sol bocejava e hora menos acabaria acordado, inteiro. O vento soprava, a relva acompanhava e o alvoroço, tão perto como longe. Seguimos som, embrenhando-nos nos campos desprotegidos de fim de noite.

Tão ali, em meio de clareira, passarinhos escuros, feito terra, piavam e agitavam, soltando penas no arzinho frio. João de Barro. Um, dois, três... Muitos. Choravam tragédia ou clamavam alegria? Olhamos. Procuramos. Bem nos ramos do Ipê, entre galhos e amarelos, restos de barro empilhado. No chão, uma cúpula apagada.

E aqueles pequeninos a piar? A mãe sinhazinha gritava como não gritaria mulher nesse mundo que Deus fez, e que o Diabo desfez. Os outros, menores que ela – dir-se-ia dela – tentavam sopros falhos no ar, que não soavam nota conhecida em sinfonia ouvida. Mas cadê João? De João, ninguém não sabia. Não estava por essas ou aquelas bandas. E que tristeza abateu sobre nós! De tal tamanho que quisemos dar consolo qualquer, aonde mãos e penas se iam a juntar. Nossas e deles. Uma pena.

Miramos pouco mais, antes de arriscar riscar o chão. O sol não queria começar o dia. Nasceria torto. Gauche. Os pequeninos procuravam pena qualquer que fosse. Rastejavam em si mesmos, como lepra ou doença valha em corpo de gente moribunda. Uma pena. De dar dó. Aproximamo-nos, coração em mãos e penas. Estendemos o que podíamos – em qualquer forma de caridade. Mas sinhazinha não quis. Reteve lágrimas e se foi para longe. Ficamos; nós e eles. Uma pena.

Miramos mais. De dar dó. E que se podia fazer? Talvez agora consolo fosse pouco, mas servisse. Arriscamos outras passadas – ousadas – que serviram apenas para arrastar passarada pelo chão. Não nos queriam, mas sim à outras penas.

O sol espiava triste e esquentaria quem o quisesse mais tarde. Quem não quisesse também. Não se podia fazer nada. Deixamos lá; penas e pena. Afastamos-nos a pés descalços e deixamos que lágrimas escorressem em ar úmido. Nossas. Deles. Lágrimas em sol. Cor de céu de nuvem. Uma pena.

Sinhazinha que voara para longe não mais veria João. Não se interessaria por José ou quem fosse. Pensaria, mas não mais veria João. Estaria por cá e lá a alvoroçar penas e pena; a piar pio de fim de tarde em meio dia. Vestiria véu que ninguém não veria. Não veria; nem a nós. A ninguém. Mas estaria lá enquanto o sol esquentasse o chão e todo o resto – quisesse ou não. De dar dó. Uma pena.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Passarada

Piaste mais fortinho, pequeno passarinho?
Ou fora leve impressão?
É de meio dia (ou talvez dia e meio)
E caminha para a manhã
(ou, quem sabe, voa).

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

De Chuva


“Vai logo. Vai logo. Vai logo!”. Chovia lá fora. As gotinhas batiam na janela fechada de madeira amarela, tentavam levar para dentro da casa aquele friozinho de chuva de outono. O sol já havia desistido de tentar burlar a união daquelas nuvens escuras, que ocupavam todos os espaços do céu e faziam se esquecer o que é noite e o que é dia. Ali, bem ali, no meio de uma cozinha de papel de parede forrando o branco e de chão de ladrinho de um vermelho queimado, um pingo de gente com listras vermelhas, amarelas e marrons, estava sentado. Tinha as perninhas cruzadas, os cabelos despenteados e a inquietação de criança que tem que ficar em casa em dia de chuva.

Não agüentou mais.

- Falta muito, mamãe?

A mãe, aquela típica dona de casa com viés de pintora, de vestido pastel e saia rodada; cabelos presos com tiara e riso de aquece-alma; deu um daqueles sorrisos de quem quer segurar a paciência consigo.

- Não, meu amor. Só mais um pouquinho.

O garotinho assentiu; já impaciente. Ajeitou-se em seu lugarzinho e tornou a encarar o vidro escuro. Queria mesmo era ver o que estava por detrás dele, porém, aquele vidro misterioso não revelava, e tudo que podia ser visto era o próprio reflexo. Na pia, o restou de louça, ainda por lavar. Vasilha, xícaras, colheres e pratos de cerâmica. Havia um pouco de espuma escorrendo, parecia até uma lagarta, que descia o móvel da pia tentando chegar à porta. Queria mesmo era estar lá fora.

A chuva não cessava, e isso destruía qualquer esperança. Já pedira para a mãe para sair de guarda-chuva, capa amarela, ou mesmo ficar ali, com a janela aberta, só sentindo os pinguinhos na pele fofa e rosada. Mas para tudo mamãe tinha resposta, e era sempre a mesma: não. Agora estava ali, a esperar. Por que raios demorava tanto o tempo a passar? Parecia até querer fazer piada dele, ver quanto tempo agüentava antes de perguntar novamente.

O garotinho, a principio, calou-se, levando para dentro de si a vontade de perguntar novamente. Levantou-se, correu até seu quarto e voltou, com algumas folhas de papel branco no braço e lápis de cor nas mãos. Olhou a mãe antes de começar. Arriscou outra pergunta.

- Falta muito ainda?

A paciência começara a escorrer, feito a chuva na janela amarela.

- Olha – começou a mãe – por que você não faz um barquinho? É o tempo de ficar pronto.

Os olhinhos do garotinho até brilharam.

- Daqueles bem grandes, como os dos filmes, mamãe?

- Isso!

- Posso levar ele navegar lá fora depois?

A mãe parou, encarou a criança. Sabia da vontade do pequeno de sair lá no jardim e tomar um pouco de chuva. Ela própria adorava fazer isso. Mas sabia também que a chuva estava muito fria. Ele ainda a encarava, enquanto ela pensava.

- Você vai parar de me perguntar se falta muito?

- Sim! – respondeu sem pestanejar aquele protótipo de homem.

- Tudo bem. Faça o melhor barco que você conseguir, e depois iremos lá fora para deixá-lo navegar.

- Oba!

E assim começou o trabalho minimamente detalhado daquele pingo de gente. Parecia até doutor estudioso do assunto. Dobrou com cuidado o papel branco, para não deixar furo no barco e não fazer os marinheiros se afogarem. Dobrou, desfez, arrumou e deu uma ajeitadinha nas pontas, e logo tinha em mãos o mais imponente dos barcos já feitos. Pintou, desenhou e rabiscou; afinal um barco como aqueles tinha que ter personalidade.

A mãe, quando viu, lembrou do que havia prometido. Suspirou e deu a mão para seu filho. Os dois avançaram pela cortinha d’água, fininha e gelada como só ela. Atravessaram o jardim de verdes escuros e águas pingantes e chegaram à rua, chegaram ao grande rio. Aquele garotinho ria a toa, à medida que ficava ensopado. Ela também, não havia como não rir, não havia como não sentir aquela coisa estranha que percorria o corpo todo e fazia a gente querer mostrar os dentes.
Colocaram o barquinho na correnteza assustadora do meio fio e viram muitos homens corajosos se despedindo de suas moças e partindo para o desconhecido.

- Para onde vai, mamãe?

- Vai chegar no mar.

Em que mar chegaria? Não importa, por que aquele imponente barquinho de papel não pararia enquanto não fosse inevitável. Desceu correndo a rua e virou a esquina. Sumiu. A essas alturas, o garotinho já estava imóvel, de braços e bocas abertas, com a língua esticada para as nuvens.

- Você esqueceu mesmo de me perguntar quanto faltava. – comentou a mãe, ensopada.

Ele nem notou, ou, pelo menos, fingiu não notar, a fim de prolongar aquele momento molhado. A mãe o observou, ia deixar ficar mais, mas eles deveriam entrar.

- Vamos pequeno. O bolo que fizemos está pronto.

O garotinho saiu do seu transe. Mirou, com brilho nos olhinhos miúdos, sorriu e entrou em casa correndo. A mãe acompanhou.

Ali, no meio da na cozinha com papel de parede forrando o branco e piso de ladrilho cor de vermelho queimado pingava um pingo de gente com listras vermelhas, amarelas e marrons. Tinha as perninhas cruzadas, os cabelos molhados, uma toalha nas costas e um enorme pedaço de bolo nas mãos. Valia-se do infinito para comer aquele pedaço. Olhou a janela. Chovia lá fora.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

De Mágica

Uma tremedeira começou e espalhou todinha por aquele corpinho pequeno, enquanto os batimentos começavam a se acelerar, à medida que as luzes iam enfraquecendo. Era uma inquietação tão forte que ele mal se agüentava no lugar. Apertava as mãozinhas nas grandes e velhas mãos do avô, e com os olhos fundos, mirava-o, esperando que se pronunciasse.

Silêncio.

- Vovô, estou com medo – finalmente admitiu.

- É só esperar um pouquinho. Você vai gostar – garantiu o velho homem de cabelos branqueados e rareados.

O garotinho engoliu seco. Mirou sua volta. Muitas pessoas ainda chegavam, fazendo esforço para enxergar à luz cada vez mais fraca. Alguns conversavam, animados, sobre as últimas notícias que saíram no jornal – um escândalo! – como sempre.

- Vovô... Está tão escuro aqui – insistiu, cada vez mais inquieto em seu amplo pequeno espaço de existência.

- Paciência, criança. Espere e verá.

O garotinho, de cabelos louros cortados à tigelinha, tinha medo de escuro. Porém, ouvir aquela voz envelhecida por veludo azul era mais reconfortante do que estar envolto no mesmo. Respirou fundo, ajeitou-se em seu lugar, tomou alguns daqueles doces coloridos do saco de papel queimado que estava entre suas perninhas finas e esperou. O burburinho aos poucos foi se aquietando. A sala, esta foi ficando mais e mais escura, feito quase breu de noite. Um certo tipo de inércia até parecia reger aquele lugar, e uma expectativa estranha se embrenhava em todos. E então: luz.

Um feixe grande assim, branco feito leite de café, que batia numa parede lisinha e explodia em imagem e cor. De trás, o som muito alto fazia vibrar as poltronas de feltro vermelho; que fazia vibrar aquele garotinho todo. Ele olhou para o avô, a boca empanturrada de doces e açúcares; e sorriu, com pedacinhos multicores ainda entre seus dentinhos de leite.

- Wow! – foi tudo que aquele pedaço de gente conseguiu dizer, extasiado demais com o glamour de tudo aquilo.

- Preste atenção agora – começou o vovô – Vamos ver uma história de mocinho e bandido, de donzela e muita ação!

Aquele velho homem, que sabe-se como ainda não fora levado com o tempo, explicava empolgado. Há tempos não sentia vivo aquele corpo, aquela alma; como sentia quando sorriu com o seu pedacinho de gente, que tanto o lembrava a ele mesmo.

O garotinho olhou, consentiu, e a partir de então, não desviou mais os olhos daquelas imagens frenéticas que não paravam na parede branca. Se viu mocinho, com arma na mão. Corria mais rápido que som, e a mira até parecia de espião de verdade. Lutou contra o bandido, salvou a mocinha e dela ganhou um beijo. Tudo isso passava ali na parede, e passava dentro dele, enquanto roubava docinho do saquinho entre as pernas.

Era clichê, mas para ele não. Ele era o filme, e lutava, e torcia, e se deliciava, bebendo daquela imagem toda e daquele som estarrecedor. Era novidade, feito tinta fresca em parede de vidro. Viu mais, olhou mais, e viveu.

E tudo passou. A história terminou, mas o garotinho não. Soltou um suspiro aliviado – ufa! – quando o bandido se rendeu, e depois das palavrinhas que subiam sem que ele as entendesse, ainda ficou, olhou. Não viu as luzes amareladas voltarem, e muito menos seu vovô a lhe chamar pelo nome.

- Carlinhos! Carlinhos!

Feito passe de mágica ou Houdini, saiu daquele transe que entrara não sabia como. Mirou o vovô.

- Vamos, criança. A sessão acabou. – explicou.

- Ah, vô! Não dá pra ficar só mais um pouquinho.

O velho homem revirou os olhos, talvez, por conta daquela dorzinha chata nas costas, quisesse ir logo. Encarou o garotinho, porém não resistiu; aquele olhinhos miúdos brilhavam demais. Deu um daqueles sorrisos discretos de canto de boca e assentiu – “só mais um pouquinho”.

Um pouquinho... Tempo suficiente para o garotinho ver e rever aquilo tudo de novo, por quanto tempo a vida o permitisse fazê-lo.