quinta-feira, 19 de julho de 2012

Perene

Embriago-me em ti.
De forma tola, sinto-te a percorrer meu corpo,
E, em tempo findo, mantenho teu gosto em minha boca,
Enquanto que olhos e ouvidos se atêm àquele sinal de adeus.

Se me fosse possível, fugiria para longe,
Mas sinto a invalidez a tomar-me a alma,
Sufocando parte do que sou, e dando-me nula alternativa,
Que não a de permanecer a teu lado.

Abraça-me, e cala minhas palavras.
Não permita agora, que profira em bom tom,
Dessas coisas que nos metem medo.

Faça com que me esqueça de passados e penas,
E só mantém minha cabeça em teu peito,
A tornar eterno o momento derradeiro.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Nota

Esvaiu-se.
Aos poucos pude vê-lo cessar,
E o brilho, outrora impune, enegrecia,
Estando logo findo,
Feito água de sal em noite sem lua.

Que fizeste, meu Deus?
Mandaste ti promessas vindouras,
E, ao badalar da última nota,
Me roubaste, com tuas garras abútreas,
Quedando eu só, num infinito que já não se vê.

Como pôde, amante ignóbil,
Lançar-se sobre mim com vulgaridades ardentes,
Emergindo em sua volúpia suja,
E maculando cálido corpo,
Que me vejo obrigada a sustentar?

Se pudesse, arrastava-me para fora de teu covil,
Mas o ar se rarefaz em minha frente,
E se dissipam os fios de luz,
Transformando-me, aos poucos,
Em monstro vil de escuridão. 

Chega, já não posso sentir; abstenho-me
À espera do errante que, sei, jamais chegará.

domingo, 15 de julho de 2012

De Abismo

Ah! Medo!
Esse demônio de carismas que paira sobre nossas cabeças
E destila, a pé de ouvidos,
As doces palavras que nos matam aos poucos.
Em seus passinhos de valsa, nos guia ao precipício invisível;
Insultando-nos, ri das totalidades vazias,
Que nas noites quentes são nosso único escape.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Nota Noturna

Pois é assim, sem tom qualquer
Ou explicação plausível,
Que pela boca se esvai o sentimento; sentido.
E nas madrugadas frias e aluadas,
Amantes póstumos trocam carícias vagas.

domingo, 24 de junho de 2012

Heróico

De hoje e há muito vê-se em face encerada,
O misto das lágrimas vermelhas.
As mãos já não podem erguer-se, os pulmões já se calam.
E dos teus gritos se faz silêncio,
E escorre tua vida, virada romance outro
De prateleira qualquer.

Visto senão como Ulisses de versos helenos,
És heróico, distante.
Ou, quem sabe, como outro Don Quixote
Aferrado às surpresas por sua ingênua coragem,
Ouve de longe risadas de piedade.

Mas isso, que tanto te importa?
Pois tu, nobre baiano,
De longa passagem curta por nossa história,
Se fez lembrado pelos esquecidos.

terça-feira, 27 de março de 2012

Terra

Emergiu no mundo como se emerge de um mar de águas. Ainda buscando fôlego, olhou para os lados – cheios, apertados. Havia muitos iguais, mas, por mais que tentasse, não conseguia, como eles, viver daquele modo. E se afogou, sozinha no meio de tantos, na solidão da terra seca.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Vermelho

Amanheceu. Sol branco, que nada tinha de estranho, no areal duro que se estende até o infinito. A brisa – quando há – faz-se presente, porém nunca é suficiente para mover uma única folha, flor. Hoje o dia parece mais quente. Não se vê muito por muito, a não ser esparsos matagais secos, com seus acúleos apontados aos céus, louvando não sei bem o quê. Vida e morte. Num misto de tudo e nada. Deus e o Diabo dançam a valsa do tempo ao sabor dos redemoinhos, que levantam nuvens amareladas, secas. Impossível a vida, a princípio, em lugar que só se espera encontrar, quem sabe, estórias em vento. Exceto, talvez, uma pequena flor. Nalgum canto, entre acúleos e sóis, nasceu. Vermelha, da cor da terra quando vê água. E que lindeza, uma cor dessas, numa parte como essa. Seca. Mas não a flor. Ela não move com a brisa. Não. Houve tempo que se esforçava para entornar pouco que fosse, talvez sonhando em ver algo diferente, qual ela, naquela paisagem dura. E viu. Grandes animais já passaram; fantasmas, brancos como o sol. Passaram e deixaram nada mais que pedras. Uma que fosse; pedra da cor dos rios que um dia a molharam, acariciaram. Era cor de pedra de rio, furta-cor se não de verde, azul. Céu. Aparecia tanto mais que a flor no sem-tempo de lá. E juntas, fizeram daquele pedaço de infinito um tanto especial, quiçá vivo, molhado. Mas foi há tempos. Já não se sabe; nem o vento, pois a flor já não balança por espiadelas à furta-cor. Não. Não há mais o que espiar. De onde pulsavam as cores em uma, não há senão areia dura de tempo. Algo, se de fato houve, já se deixara enterrar, esquecido. E a flor quedou-se só, deixando-se esquecer também, da cor da terra seca, agora sonhando com o barulho das águas que nunca viu.

---

Homenagem à uma saudade que dói.