Amanheceu. Sol branco, que nada tinha de estranho, no areal duro que se estende até o infinito. A brisa – quando há – faz-se presente, porém nunca é suficiente para mover uma única folha, flor. Hoje o dia parece mais quente. Não se vê muito por muito, a não ser esparsos matagais secos, com seus acúleos apontados aos céus, louvando não sei bem o quê. Vida e morte. Num misto de tudo e nada. Deus e o Diabo dançam a valsa do tempo ao sabor dos redemoinhos, que levantam nuvens amareladas, secas. Impossível a vida, a princípio, em lugar que só se espera encontrar, quem sabe, estórias em vento. Exceto, talvez, uma pequena flor. Nalgum canto, entre acúleos e sóis, nasceu. Vermelha, da cor da terra quando vê água. E que lindeza, uma cor dessas, numa parte como essa. Seca. Mas não a flor. Ela não move com a brisa. Não. Houve tempo que se esforçava para entornar pouco que fosse, talvez sonhando em ver algo diferente, qual ela, naquela paisagem dura. E viu. Grandes animais já passaram; fantasmas, brancos como o sol. Passaram e deixaram nada mais que pedras. Uma que fosse; pedra da cor dos rios que um dia a molharam, acariciaram. Era cor de pedra de rio, furta-cor se não de verde, azul. Céu. Aparecia tanto mais que a flor no sem-tempo de lá. E juntas, fizeram daquele pedaço de infinito um tanto especial, quiçá vivo, molhado. Mas foi há tempos. Já não se sabe; nem o vento, pois a flor já não balança por espiadelas à furta-cor. Não. Não há mais o que espiar. De onde pulsavam as cores em uma, não há senão areia dura de tempo. Algo, se de fato houve, já se deixara enterrar, esquecido. E a flor quedou-se só, deixando-se esquecer também, da cor da terra seca, agora sonhando com o barulho das águas que nunca viu.
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Homenagem à uma saudade que dói.
Belo.
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