De hoje e há muito vê-se em face encerada,
O misto das lágrimas vermelhas.
As mãos já não podem erguer-se, os pulmões já se calam.
E dos teus gritos se faz silêncio,
E escorre tua vida, virada romance outro
De prateleira qualquer.
Visto senão como Ulisses de versos helenos,
És heróico, distante.
Ou, quem sabe, como outro Don Quixote
Aferrado às surpresas por sua ingênua coragem,
Ouve de longe risadas de piedade.
Mas isso, que tanto te importa?
Pois tu, nobre baiano,
De longa passagem curta por nossa história,
Se fez lembrado pelos esquecidos.
domingo, 24 de junho de 2012
terça-feira, 27 de março de 2012
Terra
Emergiu no mundo como se emerge de um mar de águas. Ainda buscando fôlego, olhou para os lados – cheios, apertados. Havia muitos iguais, mas, por mais que tentasse, não conseguia, como eles, viver daquele modo. E se afogou, sozinha no meio de tantos, na solidão da terra seca.
sábado, 28 de janeiro de 2012
Vermelho
Amanheceu. Sol branco, que nada tinha de estranho, no areal duro que se estende até o infinito. A brisa – quando há – faz-se presente, porém nunca é suficiente para mover uma única folha, flor. Hoje o dia parece mais quente. Não se vê muito por muito, a não ser esparsos matagais secos, com seus acúleos apontados aos céus, louvando não sei bem o quê. Vida e morte. Num misto de tudo e nada. Deus e o Diabo dançam a valsa do tempo ao sabor dos redemoinhos, que levantam nuvens amareladas, secas. Impossível a vida, a princípio, em lugar que só se espera encontrar, quem sabe, estórias em vento. Exceto, talvez, uma pequena flor. Nalgum canto, entre acúleos e sóis, nasceu. Vermelha, da cor da terra quando vê água. E que lindeza, uma cor dessas, numa parte como essa. Seca. Mas não a flor. Ela não move com a brisa. Não. Houve tempo que se esforçava para entornar pouco que fosse, talvez sonhando em ver algo diferente, qual ela, naquela paisagem dura. E viu. Grandes animais já passaram; fantasmas, brancos como o sol. Passaram e deixaram nada mais que pedras. Uma que fosse; pedra da cor dos rios que um dia a molharam, acariciaram. Era cor de pedra de rio, furta-cor se não de verde, azul. Céu. Aparecia tanto mais que a flor no sem-tempo de lá. E juntas, fizeram daquele pedaço de infinito um tanto especial, quiçá vivo, molhado. Mas foi há tempos. Já não se sabe; nem o vento, pois a flor já não balança por espiadelas à furta-cor. Não. Não há mais o que espiar. De onde pulsavam as cores em uma, não há senão areia dura de tempo. Algo, se de fato houve, já se deixara enterrar, esquecido. E a flor quedou-se só, deixando-se esquecer também, da cor da terra seca, agora sonhando com o barulho das águas que nunca viu.
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Homenagem à uma saudade que dói.
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Homenagem à uma saudade que dói.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Amado Buarque na Ópera do Cais
De hora pra outra, assim sem aviso,
Vem cheiro de mar, forte, salgado.
O marasmo quente, o som da onda batendo nas pedras, no cais.
Os saveiros vem vindo, trazem peixe.
Nas ruas esparrama cheiro de moqueca com pimenta do reino,
E nos Afogados se bebe uma rodada de pinga.
O malandro compõe uns versos de samba,
Pra morena que enlouquece com cheiro de cangote.
O pai de santo prepara os encantos,
A negra vende cocada na praça,
E a meninada corre nas ruas,
Bala, Baldo, Dora. Carrossel.
E na noite as putas saem pra amar,
Sacrífico do ofício.
O trabalhador do cais volta pra casa,
O burguês descansa na varanda, toma vinho tinto.
No Bom Fim o padre guarda o cálice,
Na macumba Ogum desce,
E Maria quer de volta seu homem,
Diz reza pra Iemanjá.
A caboclinha é derrubada no areal,
O Capitão deixa de capitanar.
Vai logo pro samba do morro,
Encontrar com Overseas. Além mar.
Eis que vai até raiar dia.
Até saveiro zarpar,
Camarada cantar, morena dançar,
No Ilhéus da Bahia de Janeiro.
Universo de fois e seriam,
De samba, passado, nostalgia.
Vem cheiro de mar, forte, salgado.
O marasmo quente, o som da onda batendo nas pedras, no cais.
Os saveiros vem vindo, trazem peixe.
Nas ruas esparrama cheiro de moqueca com pimenta do reino,
E nos Afogados se bebe uma rodada de pinga.
O malandro compõe uns versos de samba,
Pra morena que enlouquece com cheiro de cangote.
O pai de santo prepara os encantos,
A negra vende cocada na praça,
E a meninada corre nas ruas,
Bala, Baldo, Dora. Carrossel.
E na noite as putas saem pra amar,
Sacrífico do ofício.
O trabalhador do cais volta pra casa,
O burguês descansa na varanda, toma vinho tinto.
No Bom Fim o padre guarda o cálice,
Na macumba Ogum desce,
E Maria quer de volta seu homem,
Diz reza pra Iemanjá.
A caboclinha é derrubada no areal,
O Capitão deixa de capitanar.
Vai logo pro samba do morro,
Encontrar com Overseas. Além mar.
Eis que vai até raiar dia.
Até saveiro zarpar,
Camarada cantar, morena dançar,
No Ilhéus da Bahia de Janeiro.
Universo de fois e seriam,
De samba, passado, nostalgia.
domingo, 13 de março de 2011
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
O Conto da Flor Dama
Existe uma lenda, das terras que primeiro vêem o sol, acerca de uma bela princesa, destinada a ser rainha. A princesa, feita de formosura e pureza, lânguida pele e lábios de pêssego, era a mais bela criatura já vista. Muito rica, era também muito cobiçada. Muitos pretendentes passavam por ela, pedindo-lhe o coração prometendo-lhe os mais belos presentes em troca, mas nenhum jamais tivera sucesso, posto que o coração da princesa já havia sido dado.
O amor se manifesta das mais distintas formas, e para a princesa acabou por um belo rapaz, de bondade sem igual e dotado de todas as virtudes que os deuses poderiam conceder, porém proveniente de uma família sem fortuna, e, assim, fadado à vida de um plebeu. Proibido, o amor dos jovens deveria, com prudência, ser evitado. Mas que pode ser prudente no fulgor de uma paixão? Assim, mantendo-o em segredo, alimentavam este amor durante a noite. Quando todos já haviam dormido, a princesa despertava, e, de sua janela, com seu amor se encontrava. Nada podiam trocar além de juras e promessas, porém, ansiavam o dia em que finalmente ficariam juntos, e, durante as horas que antecediam o nascimento do sol, juntos ali jaziam.
Ouvindo falar em tamanha beleza, e sabendo das riquezas e fracassos de todos os outros, um príncipe de terras longínquas decidiu conquistá-la. Todos duvidavam de seu sucesso diante de tão difícil mulher, porém nenhum deles suspeitava que o príncipe era, de fato, um grande feiticeiro, com poderes inimagináveis. O feiticeiro, por sua vez, não suspeitava do amor nutrido pela bela princesa a um plebeu, e muito menos imaginava que seu coração ela já havia dado.
Assim, partiu, certo de que logo a teria em seus braços. Chegando ao palácio, utilizou-se de cruel ardil, e, ao invés de procurar pela princesa e lutar por seu coração, procurou por seu pai, e este enfeitiçou, fazendo-o conceder a mão de sua filha sem por um momento perceber o que fazia. A princesa, de nada soube, e nutria planos com o amado para juntos fugirem, e, longe daquelas terras, em paz e felizes viverem.
Já baixava o sol quando o pai entrou no quarto da princesa, anunciando o casamento e dando as deivdas felicitações. A moça implorava e pedia piedade, porém, enfeitiçado pela cobiça do prícipe, o pai de nada cedia. Avisara que na manhã seguinte seu futuro esposo a conheceria, e, dali a dois dias, estariam casados. A princesa, em tremendo desespero, chamava em silêncio por seu amado. E como o dia teimava em prolongar suas horas!
Quando finalmente a noite chegou, a princesa pôde finalmente contar ao plebeu as novidades. Mortificado, jurou fugir com ela na noite que antecedia o casório. E, como em outras tantas noites, jaziam nesta trocando promessas. O feiticeiro, porém, de longe observava e ouvia, e, envenenado pela inveja da mulher que nunca teria, armou um plano perverso.
Na noite seguinte, a princesa pelo seu amado já esperava, porém, antes que pudessem se encontrar, o feiticeiro lançou-lhe terrível feitiço, transformando-a em pequenino arbusto, escondido no imenso jardim entre muitas árvores. Nada poderia ela fazer a não ser sussurrar, e esperar que, do vento, seu amado ouvisse o chamado, e, dando-se conta do que se passara, quebrasse o feitiço e a transformasse de volta. O plebeu não tardou chegar, e durante muito tempo esperou e chamou, até que a noite findou e o sol começou a surgir. Com o coração partido, foi-se, cego de lágrimas, e o primeiro barco pegou para bem longe dali.
A princesa ficou, ainda com esperanças de que seu amado a ouvisse. Durante muito tempo esperou, até que daquele amor de uma noite e de uma lágrima escorrida, surgiu uma grande flor. Branca, era a mais bela, a soberana dama na noite, que durou do crepúsculo ao nascer do sol. As brancas flores que ainda hoje brotam tentam trazer de volta à princesa seu amado, há tanto tempo perdido.
domingo, 16 de janeiro de 2011
Às Artes
Terminava a hora da sesta e todos se preparavam para as obrigações que se estenderiam até o pôr-do-sol. Joana escolheu o vestido branco de alcinha, rendado, que lhe caia tão bem na cinturinha fina e era adornado por um cinto fino, preto. Colocou seus sapatos pretos de verniz e o colar, feito com pérolas de sua mãe. Passou batom vermelho, boca madura; deu uma ajeitada nos cabelos cor de mogno, arrumados à moda, em um rabo de cavalo à Brigitte Bardot, e saiu.
Maria, por sua vez, escolheu a saia rodada de cintura alta e a blusa, de mangas curtas, cor de pedra turquesa, a combinar com seus olhos. Passou batom cor de boca, delineador negro – indispensável para quem dava valor aos olhos – e arrumou os cabelos louros num coque comportado, de quem dava boas impressões. Pegou os óculos de sol cor âmbar. Saiu.
Joana se encontrou com Maria na porta. As mães não apoiavam - como conseguiriam marido decente assim? - mas, mesmo assim, iam ver um dos filmes estrangeiros acabados de entrar em cartaz, comedia francesa chamada "Meu Tio", de um tal de Jacques Tati.
...
Em hora de almoço, restaurante de rua fica cheio que não dá pra entrar. Joana usava calça de cintura alta e blusa branca. Tinha os cabelos compridos, numa trança; e passava renda indiana nos olhos, em lugar de ficar apenas no batom vermelho, que tanto gostava. Tinha uma dessas bolsas que imitavam as tais Kelly, sucesso na Europa e de preço impagável.
Maria, por sua vez, sendo a moça ousada que era, usava minissaia e uma blusinha rendada, meio azul, meio o quê. Seus cabelos lhe chegavam à cintura, e, secretamente, ela carregava hinos americanos de revolução. Tinha agora uns óculos que chamavam de “aviador”, grande sucesso de uns tempos para cá. Saiu.
Ambas não tinham planos para o almoço em um fast food de rua, preferiam esquecer os protestos - não são coisa pra mulher casada - e comer pipoca, assistindo ao novo drama espanhol que acabara de chegar, o falado “Cria Cuervos”, nome tão sedutor de exótico.
...
Ninguém fica em casa no meio da tarde em cidade grande. Ainda mais se grande for a tradição de fugir a namorados e maridos para se encontrar. Joana se decidiu por um vestido branco, daqueles bem retos que não dão margem à cintura e assentam nos corpos que procuram recato. Passou batom vermelho, arrumou os cabelos cor de prata em seu corte curto; pegou a bolsa grande – tal qual sacola de feira – sempre na moda que estava.
Maria, por sua vez, resolveu-se pelo vestido cor de pedra, de olhos, de tanto recato quanto o de Joana; passou o batom cor de boca e sombra clara, para dar vida ao rosto de passados. Arrumou os cabelos, ainda longos, numa trança de lado; pegou seus óculos de grau com aro dourado e a bolsinha pequena e saiu.
Iam ver um filme de parceria entre a Austrália e a França, e que, pelo trailer, parecia daqueles a lhes lembrar os tempos de moça, em seus intermináveis autos e baixos. O nome do filme era “A Árvore”, ou coisa parecida.
- Homenagem ao Cine Belas Artes, seja qual for seu destino -
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